Incidentes violentos disparam: Antissemitismo cresce na Europa e no mundo, alerta relatório da Liga Anti-Difamação

Segundo um relatório divulgado esta quarta-feira pela Liga Anti-Difamação (ADL), verificou-se uma subida dramática no número de ataques contra judeus em sete países com as maiores comunidades judaicas fora de Israel — Alemanha, França, Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Argentina — os chamados J7.

Pedro Gonçalves
Maio 8, 2025
12:06

Num momento em que a Europa assinala os 80 anos da vitória sobre a Alemanha nazi e o fim da Segunda Guerra Mundial, os incidentes antissemitas estão a aumentar de forma preocupante em diversos países. Segundo um relatório divulgado esta quarta-feira pela Liga Anti-Difamação (ADL), verificou-se uma subida dramática no número de ataques contra judeus em sete países com as maiores comunidades judaicas fora de Israel — Alemanha, França, Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Argentina — os chamados J7.

O documento revela que os ataques contra escolas judaicas, sinagogas, empresas e indivíduos aumentaram significativamente em 2023, com alguns países a registarem mais do dobro de casos em relação ao ano anterior. A publicação coincide com as comemorações da derrota do regime nazi, que terminou em maio de 1945, mas os números revelam que o antissemitismo continua longe de ser uma memória do passado.

Segundo os dados apresentados, a Alemanha registou um aumento de 75% em incidentes antissemitas entre 2021 e 2023. Em França, o crescimento foi de 185%, e no Reino Unido atingiu os 82%.

“Apenas por serem judeus, muitas pessoas estão a ser assediadas. Como consequência, muitos estão a esconder os seus símbolos religiosos. Alguns até mudaram de nome”, afirmou Marina Rosenberg, presidente internacional da ADL, em declarações à Euronews.

Antissemitismo cresce nos extremos políticos e chega ao centro da sociedade
O relatório do grupo J7, criado em julho de 2023 para monitorizar e responder ao aumento global de antissemitismo, sublinha que o agravamento da situação está particularmente ligado ao ataque do Hamas a sul de Israel, em 7 de outubro de 2023, que causou a morte de cerca de 1.200 pessoas, na sua maioria civis. Desde esse momento, as tensões cresceram e os discursos de ódio tornaram-se mais frequentes, alimentando episódios de violência antissemita.

Na Alemanha, os ataques têm origem tanto na extrema-direita como em sectores da comunidade muçulmana e em cidadãos de classe média com posições pró-palestinianas. Em particular, o relatório aponta o partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) como um foco de propagação de ódio.

“A ascensão contínua da AfD representa um grande desafio”, lê-se no documento. “O partido proporciona um ambiente onde os antissemitas prosperam. Tem ligações estreitas com círculos extremistas de direita, atuando como o seu braço político no parlamento, e representa também uma ameaça à vida religiosa judaica”.

No entanto, o fenómeno não se limita aos extremos políticos. “Estamos a assistir a uma normalização do antissemitismo nas sociedades, atravessando todo o espectro político. Não é apenas uma questão da extrema-direita, da extrema-esquerda ou de islamistas. Está presente por toda a sociedade”, alertou Marina Rosenberg.

“Por isso, o que é necessário — não só na Alemanha, mas em todo o mundo — é uma abordagem que envolva toda a sociedade”, acrescentou.

Universidades e sociedade civil devem fazer mais
Em 2024, várias universidades europeias foram palco de protestos pró-palestinianos, alguns dos quais culminaram em atos de violência e detenções. Em Berlim, três cidadãos da União Europeia enfrentaram processos de deportação após uma ocupação de um edifício universitário que foi vandalizado, e durante a qual membros do corpo docente terão sido ameaçados.

Para Marina Rosenberg, é essencial que instituições como universidades e a sociedade civil em geral assumam um papel mais ativo no combate ao extremismo. “A ameaça do antissemitismo não se dirige apenas aos judeus. É uma ameaça a toda a sociedade e vai contra os valores democráticos que as nossas sociedades liberais defendem”, afirmou.

“Temos repetido que o antissemitismo é o canário na mina de carvão. O que começa com os judeus, nunca termina com os judeus. Sabemos isso aqui na Alemanha, sabemos na Europa e sabemos em todo o mundo”, sublinhou.

Números alarmantes revelam ataques físicos e ameaças
Os episódios de antissemitismo não se limitam a assédio verbal ou vandalismo. Incluem também agressões físicas e ameaças reais. Entre 1 de janeiro e 7 de outubro de 2024, a polícia alemã registou 3.200 crimes motivados por ódio antissemita. Embora este número represente uma ligeira descida em relação ao total de 2023, a tendência geral é de agravamento.

A RIAS, organização da sociedade civil que acompanha e documenta incidentes antissemitas — incluindo atos que não configuram crime — reportou quase 3.000 casos entre 7 de outubro e o final de 2023, o que confirma um pico significativo após o ataque do Hamas. Nos primeiros seis meses de 2024, já tinham sido registados 1.383 incidentes, o número mais elevado para esse período desde que há registo. Entre os casos contabilizados, 21 ocorreram em locais de memória judaica.

Rosenberg deixou um alerta final sobre o papel de todos os cidadãos na resposta a estes atos: “Quando alguém permanece em silêncio ao ver judeus a serem assediados na rua, deve compreender que, moralmente, tem a obrigação de intervir — e que pode ser o próximo”, afirmou. “Sejam imigrantes, mulheres, pessoas LGBTQ+… Quando as sociedades liberais falham na proteção das suas minorias, estão a falhar na defesa dos valores democráticos”.

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