Imagens de satélite mostram que Irão dispersou equipamento nuclear para prevenir novo ataque dos EUA

Novas imagens de satélite mostram que o Irão começou a remover equipamento essencial da central de enriquecimento de urânio de Natanz, semanas depois dos bombardeamentos norte-americanos de finais de junho terem danificado os sistemas elétricos da instalação e forçado a suspensão das operações.

Pedro Gonçalves
Setembro 3, 2025
12:32

Novas imagens de satélite mostram que o Irão começou a remover equipamento essencial da central de enriquecimento de urânio de Natanz, semanas depois dos bombardeamentos norte-americanos de finais de junho terem danificado os sistemas elétricos da instalação e forçado a suspensão das operações.

As fotografias foram divulgadas por David Albright, presidente do Institute for Science and International Security, um think tank com sede em Washington, que publicou a análise na rede X. De acordo com Albright, quase duas dezenas de grandes unidades de arrefecimento — usadas para regular as centrifugadoras — foram retiradas dos edifícios originais e dispersas por várias zonas do complexo, incluindo pistas de helicópteros e instalações de abastecimento de água.

Segundo o especialista, a movimentação tem como objetivo reduzir a vulnerabilidade a futuros bombardeamentos aéreos. “A remoção e dispersão parece ser uma tática para tornar os chillers menos vulneráveis a novos ataques”, escreveu Albright, acrescentando que Natanz continua sem energia externa e com as cascatas de centrifugadoras inativas.

Os ataques norte-americanos, realizados no final da guerra de 12 dias entre o Irão e Israel, atingiram três instalações nucleares: Natanz, Fordow e Isfahan. Embora a destruição à superfície tenha sido evidente, sobretudo em Natanz, as avaliações da inteligência dos EUA concluíram que as secções subterrâneas de Fordow não foram eliminadas. O Pentágono estimou que o programa nuclear iraniano foi atrasado em meses, possivelmente até dois anos, mas não anulado, em contraste com a afirmação de Donald Trump de que tinha sido “obliterado”.

Enquanto reorganiza as suas operações, Teerão também tem procurado responder no plano diplomático. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, afirmou na rede X que a tentativa europeia de reativar sanções da ONU através do mecanismo snapback era “ilegal e politicamente destrutiva”. Numa carta conjunta com os seus homólogos da Rússia e da China, enviada a partir de Tianjin, Araghchi acusou a Europa de ignorar que foi os Estados Unidos que primeiro violaram o Acordo Nuclear de 2015 (JCPOA), quando Trump retirou Washington do pacto.

O Irão tem vindo a ultrapassar há anos os limites de produção de urânio impostos pelo JCPOA, justificando essa decisão com a saída norte-americana e insistindo que o programa nuclear tem apenas fins civis. Com o acordo prestes a expirar em outubro, a reimposição das sanções é um cenário cada vez mais plausível.

Após os ataques conjuntos de Israel e dos EUA em junho, o Irão reuniu-se em Genebra com representantes britânicos, franceses e alemães (E3) para tentar negociar um novo entendimento. Contudo, os europeus concluíram que Teerão não apresentou sinais de verdadeira disponibilidade para chegar a acordo.

“O movimento deste equipamento mostra que o Irão parece preocupado com a possibilidade de um novo ataque destruir ainda mais material essencial às centrifugadoras”, alertou David Albright. Já Araghchi defendeu que o país não cederá a pressões externas: “A nossa posição é firme. A invocação do mecanismo snapback não tem base legal e é politicamente destrutiva”.

Neste momento, Natanz permanece sem energia e com as centrifugadoras paradas, mas com o equipamento vital redistribuído pelo complexo. O futuro do programa nuclear iraniano dependerá de uma incógnita central: se os Estados Unidos ou Israel voltam a atacar, ou se a atual pausa dará espaço a uma escalada ainda maior no Médio Oriente.

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