Fama, poder e dinheiro podem subir à cabeça de uma pessoa? Segundo os cientistas, podem até moldar o cérebro

Estudo recente da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, debruçarou-se sobre os efeitos neurais do estatuto socioeconómico

Francisco Laranjeira
Maio 24, 2022
8:15

Dinheiro. Poder. Fama. Sucesso – são conquistas e realizações de vida que dizem “poder subir à nossa cabeça”: ou seja, podemo-nos tornar pomposos, insensíveis e ‘estranhamente esquecidos’. Mas estas realizações também podem literalmente molder a forma do nosso cérebro, segundo revelou um estudo recente da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, que se debruçaram sobre os efeitos neurais do estatuto socioeconómico. Segundo os especialistas da equipa ‘BIG BEAR’ – ‘Brain Imaging and Genetics in Behavioral Research’ – fatores como a educação, o trabalho, o rendimento ou o bairro onde mora podem esculpir a arquitetura do cérebro numa variedade de lóbulos que estruturam o seu volume relativo de massa cinzenta.

Recorrendo aos dados do Biobank do Reino Unido – um ‘tesouro’ baseado em pesquisas de dados humanos, incluindo scans cerebrais e sequenciamento genómico -, a equipa de cientistas procurou padrões e mapeou ligações entre o estatuto socioeconómico e uma variação de aproxidamente 1,6% no volume total do cérebro. Ou seja, encontraram correlações mais fortes em regiões específicas, incluindo, de forma surpreendente, o cerebelo, que comanda o movimento e o equilíbrio do corpo.

“Vemos correlações a surgir em todo o cérebro entre o estatudo socioeconómico e volume de massa cinzenta”, disse Gideon Nave, professor de marketing da Wharton School of Business e coautor do artigo. “São pequenos mas com o grande volume da amostra do nosso estudo podemos ter certeza de que são reais.”

Esse é o efeito do dinheiro e do poder no cérebro. Embora tenha sido bem documentado que o estatuto afeta a saúde mental e física de diversas formas, o mais ‘nebuloso’ para os cientistas é identificar as rotas pelas quais isso acontece. A ligação entre o estatuto e a função cognitiva é meramente um produto de genética codificada ou poder resultar realmente do stress do nosso ambiente?

Para esclarecer os mecanismos, a equipa de cientistas analisou os dados de sequenciamento genómico do Biobank e concluíram que talvez tanto a natureza quanto a criação importem. A genética poderia explicar cerca de metade das ligações entre o estatuto socioeconómico e o volume cerebral – particularmente, nas regiões que controlam a comunicação, a empatia e a tomada de decisões – mas as ligações em outras regiões, como o cerebelo, pareciam ser mais ambientalmente formadas, de acordo com os especialistas. “Isso sugere que as condições socioeconómicas estão sob a pele de alguma forma”, apontou Nave.

Sem surpresa, os efeitos do baixo nível socioeconómico foram geralmente negativos no cérebro. E é uma teia complexa: por exemplo, os autores escreveram que o índice de massa corporal (IMC) – outro medidor de saúde que é influenciado tanto pela natureza (metabolismo) quanto pela nutrição (dieta e exercício) – pode ser responsável por 44% da ligação entre o estatuto socioeconómico e o volume cerebral, o que significa que, se conseguir melhorar o seu IMC, isso pode manifestar-se de forma positiva na sua estrutura cerebral.

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