Explicador: Como é que os vistos gold estão a reforçar o mercado acionista português?

 O regime de Autorização de Residência para Atividade de Investimento (ARI), mais conhecido como Golden Visa (vistos gold), tem vindo a evoluir ao longo do tempo, com a via mais relevante atualmente a passar pelo investimento em fundos que aplicam pelo menos 60% do capital em empresas portuguesas.

Fábio Carvalho da Silva e André Mendes
Agosto 29, 2025
10:25

 O regime de Autorização de Residência para Atividade de Investimento (ARI), mais conhecido como Golden Visa (vistos gold), tem vindo a evoluir ao longo do tempo, com a via mais relevante atualmente a passar pelo investimento em fundos que aplicam pelo menos 60% do capital em empresas portuguesas.

Para investidores interessados no mercado acionista, este enquadramento representa “não apenas uma oportunidade de obter residência e, eventualmente, a nacionalidade portuguesa, mas também uma forma de exposição a alguns dos principais ativos cotados no país”, como explicam os analistas da XTB.

Do ponto de vista do mercado de capitais, este mecanismo pode ter efeitos significativos no comportamento do PSI-20, o principal índice bolsista nacional. A entrada de capitais estrangeiros através destes fundos contribui, em primeiro lugar, “para aumentar a liquidez do mercado acionista português. Uma maior procura por ativos listados tende a reduzir a volatilidade em determinadas ações e a criar condições mais favoráveis para a valorização do índice”. Este efeito é particularmente relevante num mercado relativamente pequeno como o português, em que oscilações de procura conseguem ter impacto direto nas cotações.

Além disso, o PSI-20 pode beneficiar de “uma maior atratividade internacional. A canalização de recursos para fundos que investem em empresas nacionais significa que empresas portuguesas de grande capitalização – como a EDP, Galp, BCP ou Jerónimo Martins – passam a estar sob maior escrutínio e visibilidade nos circuitos globais de investimento. Esse interesse acrescido pode não só suportar o preço das ações, mas também facilitar futuros aumentos de capital ou emissões de dívida por parte dessas empresas, reforçando a sua capacidade de financiar crescimento”, detalham.

Outro impacto prende-se com a valorização de setores estratégicos. No caso português, “a energia e a banca têm peso significativo no PSI-20 e são tradicionalmente procuradas por investidores institucionais pela sua relevância estrutural e, em alguns casos, pela distribuição regular de dividendos”. Assim, empresas como a EDP e a Galp poderão beneficiar de uma procura acrescida, não só pelo seu peso no índice, mas também “pelo enquadramento internacional que apresentam, seja na transição energética ou na exposição a matérias-primas”. Da mesma forma, o BCP poderá captar atenção acrescida devido à sua posição de destaque na banca ibérica e à sua diversificação internacional, nomeadamente na Polónia e em África.

Os analistas explicam que empresas com perfil de maior estabilidade e dividendos atrativos, como a REN, a Navigator, a NOS ou a Corticeira Amorim, “também surgem como candidatas naturais a beneficiar do afluxo de capital, uma vez que os fundos orientados para investidores estrangeiros tendem a privilegiar ativos com maior resiliência e visibilidade a médio prazo”. Com este movimento, o PSI-20 ganha não apenas “em valorização potencial, mas também em robustez, aproximando-se dos padrões de atratividade que outros mercados europeus já oferecem”.

O investimento estrangeiro direcionado para fundos com forte componente acionista portuguesa está a funcionar como um catalisador do mercado de capitais nacional. Em 2025, o PSI destaca-se com “uma valorização YTD na casa dos 24%, superando a maioria dos seus pares europeus, tais como, o FTSE 100 (12%), o CAC 40 (8%) e o DAX (21%), só sendo claramente ultrapassado pelo IBEX 35 espanhol (32%)”.

Apesar deste desempenho, “esta elevada valorização relativa do PSI não está apenas relacionada com as entradas líquidas dos fundos elegíveis no regime ARI/‘Golden Visa’, mas também com o efeito de base e composição, uma vez que se trata de um mercado mais concentrado em energia, banca e utilities, onde devido à conjuntura atual, os movimentos de reavaliação têm um impacto proporcionalmente maior no índice”. O ciclo de resultados também tem sido benigno para estes setores em Portugal: “a energia beneficia da visibilidade em transição (EDP/EDPR) e do pricing em upstream/refinação (Galp), enquanto a banca melhora as margens e os lucros”.

Assim, o Golden Visa, para além do seu papel como instrumento de política migratória e de captação de capital estrangeiro, “assume hoje uma função estratégica no reforço do mercado acionista português. Ao canalizar investimento para empresas nacionais de referência, contribui para dinamizar o PSI-20 e para elevar o perfil internacional da bolsa portuguesa. Se mantida esta tendência, Portugal poderá consolidar-se como um destino não apenas turístico e residencial, mas também como uma praça financeira cada vez mais atrativa e integrada no panorama europeu”.

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