Europa inicia hoje processo para restaurar sanções da ONU contra o Irão

A decisão, confirmada por quatro diplomatas à Reuters, marca um ponto de viragem nas negociações com Teerão, numa altura em que os três países — conhecidos como E3 — procuram ainda deixar espaço para a diplomacia.

Pedro Gonçalves
Agosto 28, 2025
7:45

O Reino Unido, a França e a Alemanha deverão iniciar hoje o processo para reimpor sanções das Nações Unidas contra o Irão, invocando violações do acordo nuclear de 2015. A decisão, confirmada por quatro diplomatas à Reuters, marca um ponto de viragem nas negociações com Teerão, numa altura em que os três países — conhecidos como E3 — procuram ainda deixar espaço para a diplomacia.

Na terça-feira, representantes do E3 reuniram-se com autoridades iranianas numa tentativa de obter compromissos claros relativamente ao programa nuclear de Teerão. No entanto, os europeus consideraram insuficientes as respostas recebidas. Por isso, decidiram avançar hoje com o chamado mecanismo de “snapback”, que poderá culminar, dentro de 30 dias, na reposição de sanções que abrangem setores cruciais como o financeiro, bancário, energético e da defesa. “As verdadeiras negociações começam quando a carta for entregue ao Conselho de Segurança da ONU”, afirmou um diplomata ocidental, sob anonimato.

Apesar do passo dado, Londres, Paris e Berlim mantêm aberta a possibilidade de suspender a aplicação prática das sanções durante vários meses, caso o Irão aceite retomar inspeções completas da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) e voltar a negociar seriamente. Rafael Grossi, diretor da AIEA, confirmou que inspetores internacionais já regressaram ao país, mas sublinhou que ainda não existe acordo sobre o acesso a instalações nucleares ou sobre a fiscalização do urânio enriquecido em níveis elevados.

Segundo dados da AIEA, o Irão tem produzido urânio com uma pureza de até 60%, muito próximo dos 90% necessários para fins militares. Antes dos ataques de Israel, a 13 de junho, o país dispunha já de material suficiente para, se refinado, permitir a construção de seis ogivas nucleares. Teerão insiste que o programa tem fins pacíficos e nega procurar armamento nuclear, mas o Ocidente argumenta que a dimensão dos avanços ultrapassa necessidades civis.

O governo iraniano tem reagido com firmeza às movimentações europeias. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araqchi, disse no Parlamento que ainda não existe acordo para retomar a cooperação plena com a AIEA, enquanto Teerão ameaça responder de forma “dura” caso as sanções sejam efetivamente restabelecidas.

Os próximos 30 dias serão decisivos. Se nada mudar, em finais de setembro as sanções estarão novamente em vigor, colocando sob forte pressão o regime iraniano e elevando a tensão numa região já marcada por conflitos e instabilidade.

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