Entre gritos e pó, depois silêncio: as vozes que viram a tragédia no Elevador da Glória

A tragédia, que se deu por volta das 18h00, deixou marcas indeléveis não só nas vítimas e nas suas famílias, mas também em quem presenciou o desastre.

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Setembro 4, 2025
11:37

O descarrilamento do Elevador da Glória, ocorrido ao final da tarde de quarta-feira em Lisboa, provocou 17 mortos e mais de 20 feridos. A tragédia, que se deu por volta das 18h00, deixou marcas indeléveis não só nas vítimas e nas suas famílias, mas também em quem presenciou o desastre. As histórias, ouvidas pela Rádio Renascença, dos que viram de perto o que aconteceu revelam o horror vivido no coração da capital.

João Peixoto, de 23 anos, que trabalha num quiosque na Avenida da Liberdade, descreveu imagens de cortar a respiração: “Ouvi as pessoas dizerem que havia mãos espalhadas, havia um bocado de braço aqui e ali”.

Do outro lado da rua, Mohammad Farid, empregado numa loja frente ao elevador, sentiu o impacto do acidente quase de imediato. “Ao ouvir um grande barulho e ver fumo, fui logo com um amigo perceber o que se passava. Encontrámos a carruagem destruída e vimos, pelo menos, quatro ou cinco mortos debaixo dela”, relatou, acrescentando que chegou a registar imagens no telemóvel.

Apesar do choque, Mohammad e o amigo tentaram socorrer quem ainda estava com vida. “Nós vimos uma criança a chorar no chão e tentámos levantá-la”, recorda. O contraste entre o choro do menor e o ambiente envolvente é uma das memórias mais marcantes: “Havia um silêncio pesado, como se todos estivessem em choque”.

Também Teresa d’Avó testemunhou de perto o acidente. “Houve muito barulho, muito pó, as pessoas a gritarem. Mas depois, curiosamente, instalou-se uma calma estranha, como se o choque tivesse travado todos os sons”, descreveu.

Segundo a testemunha, tudo começou com problemas no primeiro dos elétricos: “O que nos deu o alerta foi o elétrico que desce. A cerca de um metro e meio do percurso final, ficou sem freio”. Seguiu-se um embate forte: “Foi um embate de metro e meio, fez muito barulho, as pessoas lá dentro assustaram-se e gritaram”.

Teresa e um colega preparavam-se para prestar auxílio quando a segunda carruagem surgiu descontrolada: “Virei-me e só disse às pessoas ‘Fujam!’. O nosso medo era que embatesse na outra e descesse até ao meio da Praça dos Restauradores. Fugimos todos”. O veículo acabou por se despistar contra um prédio, num impacto que, segundo Teresa, pode ter evitado uma tragédia ainda maior: “Se a rua fosse a direito, as duas carruagens teriam embatido uma na outra”.

Após o embate, Teresa afirma ter visto uma vítima no passeio, aparentemente colhida pela carruagem.

O alerta foi dado às 18h08 e, segundo o comandante dos Bombeiros Sapadores de Lisboa, Alexandre Rodrigues, os primeiros meios chegaram em “três minutos”. Em poucos instantes, mais de três dezenas de operacionais estavam no terreno.

A Procuradoria-Geral da República confirmou a abertura de um inquérito para investigar as causas do acidente, enquanto o Governo decretou um dia de luto nacional a cumprir esta quinta-feira. Já a Câmara Municipal de Lisboa, pela voz do presidente Carlos Moedas, declarou três dias de luto municipal: “Lisboa está de luto”, afirmou o autarca, sublinhando o caráter inédito da tragédia.

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