O regresso às aulas está à espreita, e já começou a corrida aos manuais, livros e manuais escolares, mas também ao alojamento, no caso dos estudantes universitários deslocados das zonas de residência, entre muitas outras despesas que pesam na carteira de milhões de portugueses.
A DECO explica, à Executive Digest que 2023 tem sido “um ano de grandes desafios para as famílias portuguesas”, e este período não será exceção. A associação relata que “a situação tende a tornar-se especialmente complicada” para muitas famílias já com os orçamentos altamente pressionados pela inflação, aumento do custo de vida, subida das rendas e das prestações do crédito à habitação a pagar aos bancos, e outras dificuldades.
Elisabete Policarpo, jurista do Gabinete de Proteção Financeira da DECO, sustenta em entrevista à Executive Digest, que as famílias devem ter, neste período delicado “uma atuação preventiva e proativa” e deixa alguns conselhos para minorar os obstáculos e dificuldades que possam surgir nesta altura de mais despesas.
1 – Com o regresso às aulas à porta, têm-vos chegado mais pedidos de ajuda de famílias em dificuldades em enfrentar os gastos que esta altura representa?
2023 é um ano de grandes desafios para as famílias portuguesas. Os seus orçamentos estão cada vez mais reduzidos para fazer face a todos as despesas a que se encontram vinculadas, sendo que nesta altura do ano, com as despesas com a educação, a situação tende a tornar-se especialmente complicada.
As famílias que procuram a DECO apontam, como principal causa para as dificuldades financeiras, o aumento do custo de vida. Na verdade, apesar da inflação apresentar uma tendência de decréscimo, os consumidores ainda não sentem este efeito no seu orçamento. Perda de rendimento e desemprego são também causas apresentadas pelos consumidores. Todas estas causas refletem o atual momento económico e social, em que as famílias sentem, não só o peso das despesas mensais, mas também o aumento da prestação do crédito à habitação.
2 – Quais são os maiores obstáculos e dificuldades que enfrentam as famílias?
As famílias enfrentam grandes obstáculos para cumprir as despesas com material escolar, manuais e outros itens semelhantes. No que respeita aos manuais escolares do ensino público obrigatório, a sua gratuitidade é muito bem vinda. Os encarregados de educação, através da plataforma mega, podem obter os vouchers para o seu levantamento gratuito nas livrarias aderentes. Porém, é necessário adquirir os cadernos e fichas de atividades, bem como todo o material escolar, como sejam cadernos, canetas e lápis, entre outros. A pesquisa detalhada de preços e de promoções, a par da escolha por produtos de marca branca, pode ser uma solução para poupar um pouco. Com alguns ajustes nos seus orçamentos, as famílias acabam por ultrapassar estas despesas.
Já na questão da habitação ou alojamento, os ajustes não são tão fáceis de acomodar. Esta despesa continua a ser a que tem maior impacto no orçamento das famílias. Acresce que o preço do alojamento para estudantes aniversários tem apresentado valores cada vez mais elevados, veja-se por exemplo o preço médio por quarto que, segundo dados divulgados pelo observatório do alojamento estudantil, é de 349,00€.
Por outro lado, as famílias deparam-se com o aumento da prestação associado ao crédito à habitação, enfrentando-se aumentos, em alguns casos, de 40% do valor mensal da prestação. Ora esta despesa, conjugada com o encargo de alongamento de filhos estudantes universitários deslocados, é sufocante para os orçamentos das famílias.
A despesa com alimentação é ainda outro encargo com grande peso no orçamento das famílias. Recorde-se que as famílias que recorrem a DECO, em média, têm um gasto mensal de 270,00€ com alimentação e possuem um rendimento médio de 1100€. Este cenário demonstra o peso que este tipo de despesa tem nos orçamentos.
4 – Perante o expectável aumento das prestações do crédito à habitação em setembro, as famílias temem não conseguir chegar ao fim do mês?
Para muitas famílias o mês de setembro será sempre difícil. Não só porque existe um aumento dos referidos encargos associados a educação, mas porque muitas serão confrontadas com o aumento da prestação no crédito à habitação – podemos estar a falar de mais 231,€ de acréscimo, o que, em orçamentos de famílias mais vulneráveis, poderá levar a situações de incumprimento.
Nos pedidos de ajuda que chegam diariamente à DECO, a maioria dos consumidores tem o pagamento dos seus créditos regularizado. Contudo, as famílias relatam grandes dificuldades em manter esta situação, sobretudo pelo aumento da prestação do crédito à habitação.
Neste sentido, recomendamos uma atuação preventiva e proativa. Ou seja, perante um cenário de dificuldade em cumprir com todos os encargos assumidos é importante que as famílias realizem o orçamento mensal, analisem as despesas, procurando aquelas que são passíveis de redução ou até eliminação e que calculem a sua taxa de esforço – o peso que as prestações dos contratos de crédito têm no rendimento familiar.
Com base nesta análise, se concluírem que existe o risco de incumprimento nos contratos de crédito, quer seja no de habitação, pessoal ou outro, deverão contactar com a maior brevidade possível a instituição de crédito, solicitando que a sua situação seja devidamente analisada e se pesquise uma solução adequada.
5 – Que conselhos / dicas dão as famílias para pouparem (ou gastarem menos) nesta altura delicada para os orçamentos familiares?
Deixamos alguns conselhos aos consumidores para enfrentarem de forma mais equilibrada e consciente esta época do ano delicada:
- Faça o orçamento de quanto pretende gastar com os encargos referentes a educação.
- Elabore a lista detalhada dos itens necessários e defina a prioridade destes, de forma a conseguir ajustar o que for necessário.
- Reutilize os materiais (em condições) de anos anteriores ou que familiares e amigos não utilizem e possam partilhar. Para além de permitir poupar algum dinheiro, estará a ajudar o meio ambiente.
- Pondere a utilização de artigos em segunda mão. Esta opção permitir-lhe-á poupar algum dinheiro, por exemplo, na compra de vestuário e calçado.
- Compare preços, analise e avalie as promoções e descontos. É importante que realize uma pesquisa prévia e atempada em lojas físicas e online e verifique se efetivamente a promoção ou o desconto são interessantes.
- Não se esqueça de pedir fatura com número de contribuinte, para que possa deduzir algumas despesas em sede de IRS.
- Aproveite os manuais escolares gratuitos, através da plataforma mega.
- Recorrer ao cartão de crédito ou a um crédito pessoal para a compra do material escolar deve ser uma decisão bem ponderada, caso contrário pode contribuir para agravar a taxa de esforço e ser o início de uma situação de excesso de endividamento.
Por último, alertamos para a importância de planear esta e outras épocas do ano em que espera despesas extra. São períodos especialmente complicados financeiramente, que previstos, permitem que uma resposta flexível e eficiente do seu orçamento.














