Um estudo liderado por sociólogos e cientistas da computação revela que, nas semanas que antecederam a invasão da Ucrânia em 2022, o Kremlin usou uma estratégia digital intensiva baseada em memes e imagens manipuladas para moldar a opinião pública e justificar a agressão militar.
A investigação analisou quase 6 milhões de posts e mais de 3 milhões de imagens partilhadas por 989 bloguers militares russos na plataforma Telegram. Os dados mostram que, nas duas semanas anteriores à invasão, o número de publicações aumentou 9.000% e as imagens manipuladas cresceram mais de 5.000%.
Segundo os autores do estudo, entre os quais Tim Weninger e Ernesto Verdeja, esta “guerra dos memes” teve um papel essencial na desumanização dos ucranianos, na criação de inimigos internos e externos, e na promoção de uma narrativa que justificasse a violência, revela o ‘El Confidencial’. O uso de conteúdo visual — mais impactante e mais difícil de detetar do que textos — revela uma nova fase na manipulação de massas via redes sociais.
Um exemplo citado é um meme que ridiculariza o jornalista russo Arkady Babchenko, crítico do regime de Putin, cuja morte foi falsamente noticiada em 2018. A imagem, criada com recurso a inteligência artificial, apresentava a cabeça de Babchenko no corpo de outra pessoa com a frase “jogadores não morrem, eles reaparecem”, minimizando a gravidade da situação e desacreditando opositores.
Outro exemplo foi uma montagem que combinava os rostos do presidente francês Emmanuel Macron e do governador ucraniano Vitalii Kim, com uma mensagem subtilmente crítica em relação ao apoio europeu à Ucrânia. Estas imagens, interpretadas por especialistas em ciência política, pretendiam lançar dúvidas sobre a lealdade dos aliados europeus.
Para os investigadores, a colaboração entre a inteligência artificial e a análise humana foi essencial para detetar e interpretar o impacto político destas campanhas visuais. Embora os sistemas de IA consigam identificar alterações em imagens, continuam a carecer de compreensão sobre o contexto político e cultural — um aspeto crucial nestas operações de desinformação.
A investigação alerta para a necessidade urgente de monitorizar e estudar os conteúdos visuais nas redes sociais como parte de estratégias de prevenção de conflitos. A disseminação coordenada de imagens manipuladas, defendem os autores, deve ser entendida como um possível sinal de alerta para surtos de violência ou instabilidade política.














