Colégios privados sem vagas em Lisboa, Porto e Braga: falta de professores no ensino público entre as principais causas para a subida da procura

A tendência de crescimento da procura intensificou-se após a pandemia de covid-19, com os pais a darem mais importância à estabilidade e à qualidade do projeto educativo.

Revista de Imprensa
Março 7, 2025
9:36

A procura por vagas nos colégios privados em Portugal continua a aumentar, especialmente em grandes centros urbanos como Lisboa, Porto e Braga, onde a lotação se aproxima do limite. Segundo Rodrigo Queiroz e Melo, diretor-executivo da Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo (AEEP), a pressão sobre o setor tem vindo a crescer nos últimos anos, sem sinais de abrandamento. “Estamos cheios, continuamos com muita procura e com alguns segmentos a crescer, como as escolas com currículos internacionais”, afirmou ao Diário de Notícias (edição impressa), sublinhando que as instituições que oferecem todos os ciclos de ensino, do 1.º ano ao Secundário, estão geralmente esgotadas.

A tendência de crescimento da procura intensificou-se após a pandemia de covid-19, com os pais a darem mais importância à estabilidade e à qualidade do projeto educativo. “Os pais valorizam mais, hoje em dia, uma escolaridade mais bem-sucedida”, refere o responsável, atribuindo este fenómeno também ao facto de as famílias terem menos filhos e estarem dispostas a investir mais na educação. Além disso, a chegada de milhares de estrangeiros de classe média a residir em Portugal, em particular em Lisboa e no Porto, tem alimentado a procura, uma vez que muitos procuram colégios internacionais.

A escassez de professores, especialmente em regiões como Lisboa e Porto, agrava a situação e contribui para o aumento da procura pelo ensino privado. “A falta de docentes é um problema que se faz sentir em todo o país, mas nas grandes cidades a situação é ainda mais crítica”, explica Queiroz e Melo. O diretor da AEEP sublinha que, apesar da abertura de novos colégios privados, a procura crescente dos últimos quatro a cinco anos continua a exercer forte pressão sobre o setor. De acordo com dados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), em 2022/23 havia 148 estabelecimentos privados no Ensino Básico e Secundário em Lisboa (108) e no Porto (40), excluindo jardins de infância e escolas profissionais.

No entanto, nem todos veem este aumento da procura pelo ensino privado como um reflexo da qualidade educativa. Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP), rejeita a ideia de que a escolha dos colégios privados se deve a uma superioridade no ensino. “Os melhores profissionais estão no ensino público e, quando têm oportunidade, fazem a transição do privado para o público sem hesitar”, defende. Para Lima, a principal razão para a opção pelo ensino privado prende-se com a maior autonomia na gestão dos recursos humanos. “As escolas públicas não podem contratar diretamente professores, o que limita a sua capacidade de organização”, argumenta.

Além da rigidez na gestão, Lima aponta as greves como outro fator que influencia a decisão das famílias. “Já foram oito greves este ano, e as paragens afetam apenas o setor público. Os pais não podem deixar de trabalhar por causa das interrupções nas escolas dos filhos”, explica. O dirigente desvaloriza, por outro lado, o impacto das condições físicas das escolas na escolha do ensino privado, apesar de mais de 500 estabelecimentos públicos aguardarem obras de requalificação. Para Lima, a escolha entre público e privado também reflete questões sociais: “Alguns pais preferem um ambiente mais homogéneo, enquanto outros valorizam a diversidade da escola pública”.

Atualmente, segundo a DGEEC, há 1 971 312 alunos matriculados no ensino em Portugal Continental, dos quais 1 204 938 frequentam o ensino público e 327 318 estão no privado. O Perfil do Aluno 2022/2023 revela que a maioria dos alunos do ensino privado está no Ensino Básico (116 656) e no Pré-Escolar (115 637), enquanto quase 95 mil frequentam o Ensino Secundário. Apesar do crescimento do setor privado, a instabilidade política e a falta de reformas estruturais no ensino público continuam a pesar nas decisões das famílias, reforçando uma tendência que parece longe de abrandar.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.