Cientistas revelam quem é o dono do soco mais rápido e poderoso do Mundo (e não, não é do Mike Tyson)

Um novo estudo publicado na revista Science revela os mecanismos que permitem ao camarão-mantis desferir golpes devastadores sem se autolesionar.

Pedro Gonçalves
Fevereiro 15, 2025
14:30

Esqueça nomes lendários do boxe como Mike Tyson ou Muhammad Ali. O soco mais rápido do mundo pertence, afinal, ao camarão-mantis. Este pequeno crustáceo tem uma capacidade de ataque tão impressionante que consegue partir conchas com uma força equivalente à de um projétil de calibre .22 – e sem sofrer danos com o impacto. Um novo estudo publicado na revista Science revela os mecanismos que permitem ao camarão-mantis desferir golpes devastadores sem se autolesionar.

Os cientistas descobriram que o segredo para essa resistência está na estrutura do seu membro de ataque, conhecido como “dáctilo”, que funciona como uma verdadeira maça de guerra. De acordo com a investigação, esta estrutura é capaz de absorver as ondas de choque geradas pelo impacto dos golpes, evitando danos nos próprios tecidos do animal.

Horacio Espinosa, professor de engenharia mecânica e biomédica na Universidade Northwestern e um dos autores do estudo, explicou a importância deste mecanismo de defesa. “O camarão-mantis é conhecido pelo seu golpe incrivelmente poderoso, capaz de partir conchas de moluscos e até de estilhaçar o vidro de aquários”, afirmou Espinosa num comunicado de imprensa. “No entanto, para executar repetidamente estes ataques de alto impacto, o dáctilo do camarão-mantis precisa de um mecanismo robusto de proteção para evitar danos autoinfligidos.”

Segundo o investigador, este mecanismo funciona através de estruturas fonónicas, que filtram seletivamente as ondas de tensão geradas pelos impactos. “Descobrimos que o camarão-mantis utiliza estas estruturas para preservar a sua capacidade de ataque ao longo de múltiplos impactos e para proteger os tecidos moles de possíveis danos”, explicou Espinosa.

O segredo do golpe destruidor do camarão-mantis
O camarão-mantis está equipado com uma espécie de martelo em cada lado do corpo, que se comporta como uma estrutura de mola capaz de armazenar energia em forma elástica. Essa energia fica retida por tendões em forma de alavanca e, quando a trava é solta, é liberada de forma explosiva, disparando o dáctilo contra a presa com uma força tremenda.

Espinosa detalhou ainda os efeitos deste impacto: “Quando o camarão-mantis ataca, a força do golpe gera ondas de pressão no alvo. Além disso, cria bolhas que colapsam rapidamente, produzindo ondas de choque numa faixa de megahertz. O colapso dessas bolhas liberta rajadas intensas de energia que viajam através do dáctilo, tornando o ataque ainda mais destrutivo.”

Os investigadores ficaram surpresos ao constatar que, apesar da força extrema dos seus golpes, o camarão-mantis não sofre danos nos nervos e tecidos moles que ficam sob a sua carapaça protetora. A análise da estrutura do seu “martelo” revelou um design altamente sofisticado, com padrões que evitam fraturas e um sistema de filtragem de vibrações que impede que ondas de alta frequência se propaguem pelo corpo do animal.

“O segmento periódico desempenha um papel crucial na filtragem seletiva de ondas de cisalhamento de alta frequência, que são particularmente prejudiciais aos tecidos biológicos”, explicou Espinosa. “Este sistema funciona como um escudo fonónico que protege o camarão-mantis das ondas de tensão geradas pelo impacto direto e pelo colapso das bolhas.”

Para além de revelar mais um feito notável da natureza, a descoberta poderá ter implicações práticas significativas. Os cientistas acreditam que o estudo do camarão-mantis pode inspirar o desenvolvimento de novos materiais artificiais com propriedades inovadoras, como filtros mecânicos para dispositivos eletrónicos, incluindo telemóveis e outros equipamentos.

A extraordinária capacidade deste pequeno crustáceo não só desafia a lógica da biomecânica, como abre caminho para aplicações tecnológicas revolucionárias. Afinal, a criatura com o golpe mais rápido do mundo não sobe a um ringue de boxe – mas esconde-se no fundo do mar.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.