No extremo oeste da Irlanda, a pequena cidade costeira de Westport, no condado de Mayo, é hoje o coração da produção mundial de Botox. Com apenas sete mil habitantes, a localidade depende fortemente da fábrica da farmacêutica AbbVie, que emprega 1.300 residentes e cerca de 500 trabalhadores contratados. Mas uma decisão recente dos Estados Unidos ameaça abalar este delicado equilíbrio económico.
Na semana passada, o presidente norte-americano Donald Trump anunciou tarifas de 15% sobre todas as exportações farmacêuticas da União Europeia, medida que, segundo receiam alguns, poderá ter efeitos devastadores em Westport. A fábrica, aberta em 1977 pela Allergan e adquirida pela AbbVie em 2020, processa e embala Botox em pó para exportação para cerca de 70 países, com os EUA a representarem 70% do volume de negócios.
O Botox produzido em Westport não é apenas utilizado para fins estéticos. A versão terapêutica trata doenças como espasticidade muscular, enxaquecas, bexiga hiperativa, problemas oculares e transpiração excessiva, representando cerca de 3 mil milhões de euros das receitas anuais da AbbVie. Já o Botox cosmético gerou perto de 2,5 mil milhões de euros em vendas no último ano.
A importância da fábrica vai muito além dos empregos diretos. O investimento da AbbVie financia infraestruturas, clubes desportivos e instituições de caridade locais. No AbbVie United Park, casa do Westport United F.C., é frequente ver famílias inteiras ligadas à empresa.
“Estão preocupados com os seus empregos, não sabem como é que as coisas vão correr”, relatou Anne-Marie, proprietária de uma creche que recebe filhos de trabalhadores da fábrica, sublinhando que a sua própria subsistência depende da economia local.
Já Brian Cusack, do comité de desenvolvimento do clube de futebol, admite que “vão acontecer muitas mudanças, e talvez não para o bem”, embora mantenha algum otimismo: “O que se pode fazer é esperar pelo melhor. Mas as economias não se fazem à base de esperança”.
Tarifa pode chegar aos 250%
O recente acordo comercial entre EUA e UE parecia ter atenuado as tensões, mas a tranquilidade durou pouco. Na terça-feira passada, Trump afirmou que as tarifas sobre produtos farmacêuticos importados poderiam atingir 250% nos próximos 18 meses, no âmbito de uma investigação ao abrigo da Secção 232, que avalia se medicamentos estrangeiros representam ameaça à segurança nacional.
A informação foi avançada pela CNN Internacional, que sublinha que os EUA representam atualmente o maior mercado para a produção da AbbVie em Westport e que uma mudança nas regras comerciais poderá ter forte impacto na economia local.
Para o conselheiro de Mayo, Peter Flynn, que trabalhou quase três décadas na Allergan, a ideia de transferir rapidamente a produção para território norte-americano é “absurda”. “Este tipo de abordagem ‘lift and shift’ é impraticável”, afirmou, salientando os custos elevados, obstáculos regulamentares, desafios logísticos e falta de mão-de-obra especializada nos EUA.
A AbbVie recusou prestar declarações à CNN, mas o seu presidente, Robert A. Michael, afirmou recentemente estar em “discussões construtivas” com a administração norte-americana. Na terça-feira, a empresa anunciou um investimento de 195 milhões de dólares na sua unidade de Chicago, inserido num plano de mais de 10 mil milhões de dólares em projetos nos EUA na próxima década.
Segundo dados oficiais, os produtos farmacêuticos representaram 44 mil milhões de euros das exportações irlandesas para os EUA em 2024. Nos primeiros dois meses de 2025, antes do novo pacote tarifário, a Irlanda exportou já 20 mil milhões de euros em produtos do setor para território norte-americano.
O analista do ING, Diederik Stadig, alerta que uma tarifa de 15% poderá aumentar os preços dos medicamentos nos EUA entre 7% e 10%, acrescentando até 13 mil milhões de dólares por ano aos custos de saúde. Medicamentos não cobertos por seguros, como o Botox cosmético, poderão tornar-se significativamente mais caros.







