Catástrofe silenciada no México: A história do voo 2605 da Western Airlines

No dia 31 de outubro de 1979, o Aeroporto Internacional da Cidade do México testemunhou uma das mais graves catástrofes aéreas da história do país.

Pedro Gonçalves
Agosto 11, 2024
14:00

No dia 31 de outubro de 1979, o Aeroporto Internacional da Cidade do México testemunhou uma das mais graves catástrofes aéreas da história do país. Este acidente, resultante de uma série de erros, marcou profundamente a aviação e as investigações subsequentes, no entanto foi silenciado e encoberto pelas autoridades oficiais.

À 01:00 da madrugada, hora local, o voo 2605 da Western Airlines estava prestes a partir do Aeroporto Internacional de Los Angeles (LAX), na Califórnia, com destino à Cidade do México. O DC-10-10, com matrícula N903WA e apelidado de “Búho Nocturno”, tinha sido fabricado em 1974 e acumulava 24.614 horas de voo. A aeronave, comandada pelo experiente capitão Charles Gilbert e pelo primeiro oficial Ernst Reichel, iniciava uma rota de 2.500 quilômetros que deveria durar cerca de quatro horas.

Após um voo sem incidentes, a tripulação começou a preparação para a aterragem no aeroporto da Cidade do México às 05:30, hora local. A cidade possui duas pistas paralelas, a 23 esquerda (23L) e a 23 direita (23R). A pista 23L, equipada com sistema ILS (Instrument Landing System), estava em manutenção e fechada desde 19 de outubro, conforme um NOTAM (Notice To Airmen). A pista 23R, sem ILS e apenas adequada para aproximações visuais, foi a única disponível para aterragem.

Devido à visibilidade reduzida a 2-3 milhas (4-6 km) e condições meteorológicas adversas, a tripulação deveria realizar uma aproximação ILS. No entanto, com a pista 23L fora de serviço, o Controle de Tráfego Aéreo (ATC) recomendou uma manobra “side-step” ou de desvio lateral, que consistia em realizar a aproximação à pista 23L com o objetivo de aterrar na pista 23R.

A Tragédia

Às 05:39, a visibilidade havia diminuído para zero. Apesar das instruções de ATC e das condições meteorológicas, a tripulação estava confusa e não tinha clareza sobre a manobra a ser realizada. A aeronave, ainda em aproximação para a pista 23L, acabou por tocar o solo na pista errada e colidiu com um camião de manutenção.

O impacto destruiu parte do trem de aterragem e do estabilizador horizontal, fazendo com que a aeronave começasse a inclinar-se para a direita e colidisse com um hangar próximo. Às 05:41, o DC-10, agora em chamas, partiu-se em três e foi completamente destruído. O acidente resultou na morte de 72 das 88 pessoas a bordo, além do motorista do camião envolvido. Outras 13 pessoas ficaram gravemente feridas.

Investigações e Conclusões

Apesar da gravidade do acidente, o relatório oficial da investigação, realizado pela Direção Geral de Aeronáutica Civil (DGAC) do México, foi mantido em sigilo, com o caso sendo fechado com o veredito de “erro do piloto”. A Organização de Aviação Civil Internacional (OACI) publicou um relatório na Circular 173-AN/109, que identificou falhas críticas na comunicação e procedimentos da tripulação.

A investigação revelou que a aeronave não seguiu os procedimentos mínimos de aproximação e que a tripulação deveria ter interrompido a aproximação ao perceber que não tinha a pista visível. Além disso, a fadiga do capitão, que havia estado acordado por 24 horas antes do voo, pode ter contribuído para sua falta de consciência situacional.

Impacto e Reações

A tragédia do voo 2605 gerou mudanças significativas na aviação. As recomendações de segurança A-80-59 e A-80-60 da NTSB (National Transportation Safety Board) foram publicadas, exigindo a documentação explícita dos procedimentos de aproximação e a comunicação clara para manobras laterais em aeroportos.

A catástrofe do voo 2605 continua a ser uma lição amarga na aviação, sublinhando a importância de procedimentos rigorosos e comunicação eficaz para garantir a segurança dos voos.

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