As autoridades da Hungria e Eslováquia sugeriram que os surtos atuais de febre aftosa altamente infeciosa, que tem dizimado rebanhos, podem estar ligados ao bioterrorismo, indicou esta quarta-feira o jornal ‘POLITICO’, sem contudo oferecer qualquer evidência científica.
As autoridades húngaras detetaram um caso de febre aftosa no início de março último numa quinta de gado na fronteira com a Eslováquia, no primeiro surto do país em 50 anos. Desde então, animais em mais três quintas húngaras e seis eslovacas testaram positivo para o vírus, o que levou as autoridades a vacinar os rebanhos para reduzir qualquer disseminação adicional antes do abate de emergência. Os dois países abateram mais de 10 mil animais para conter a doença. A Eslováquia declarou estado de emergência, impôs restrições de fronteira e criou um centro de vigilância com polícia, bombeiros e militares, tanto em terra quanto no ar.
“De acordo com o meu conhecimento atual, não há evidências que sustentem esse cenário”, indicou o virologista Jiri Cerny, da Universidade Checa de Ciências da Vida em Praga, sobre as alegações de bioterrorismo. “Isso não significa que devemos ignorar a possibilidade de explicações alternativas, mas sim que elas devem ser cuidadosamente investigadas, não presumidas sem evidências. Isso não significa que um ataque bioterrorista seja uma explicação provável”, apontou.
A febre aftosa é a doença animal mais temida do mundo: altamente contagiosa em ruminantes como vacas, porcos, ovelhas e cabras, raramente mata o gado, mas causa febre, perda de apetite e bolhas nos cascos e na boca, o que exige o abate de todo o rebanho — e a imposição de zonas de exclusão para evitar a sua propagação.
A doença tem o potencial de devastar a pecuária. Um surto no Reino Unido em 2001 causou uma crise agrícola e turística que custou mais de 15 mil milhões de euros: as autoridades abateram mais de 6 milhões de animais na tentativa de erradicar a doença. A Alemanha também relatou um surto em janeiro, que já foi contido.
Para o virologista, o vírus provavelmente foi transmitido por acidente e deve ser tratado como tal até que se prove o contrário. “Pode ser transportado por calçado, roupa, equipamentos contaminados ou até mesmo penas de aves de espécies migratórias. Casos semelhantes de introdução não intencional já foram documentados no passado”, apontou.
No entanto, as autoridades húngaras, em particular o chefe de gabinete do primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, Gergely Gulyás, sugeriram que os surtos poderiam ser o resultado de um ataque biológico. “Nesta fase, podemos dizer que não se pode descartar que o vírus não tenha origem natural, podemos estar a lidar com um vírus artificialmente projetado”, apontou, acrescentando que a suspeita foi baseada em informações verbais recebidas de um laboratório estrangeiro cujas descobertas ainda não foram comprovadas.
O ministro da Agricultura eslovaco, Richard Takac, reforçou a possibilidade. “Há várias especulações, várias perguntas que nós aqui na Eslováquia estamos a fazer. As mesmas perguntas estão a ser feitas pela Comissão Europeia também”, indicou. “Posso confirmar que, em documentos oficiais após reuniões a nível europeu, o bioterrorismo é mencionado como um dos cenários possíveis. Que alguém pode ter trazido o vírus para cá com alguma intenção. É objeto de uma investigação em andamento.”
Vários países têm tomado medidas de proteção, desde a vizinha Áustria e a República Checa, que intensificaram os controlos de fronteira, até o Reino Unido, que proibiu a importação de carne e laticínios da UE.














