Às armas no feminino: Como a indústria militar da Ucrânia se tem adaptado à falta de homens

As mulheres estão a preencher lacunas em vários setores, desde a construção civil ao transporte rodoviário, mas é na defesa onde se observa um crescimento expressivo.

Pedro Gonçalves
Outubro 30, 2024
15:22

Na Ucrânia, enquanto muitos homens lutam na linha de frente contra as tropas russas, mulheres como Halyna Yavorska assumem papéis críticos na defesa do país. Yavorska, advogada de profissão, trocou o escritório pela linha de montagem de drones, que se tornaram essenciais para o exército ucraniano. “Quando o meu marido foi para a guerra, percebi que também queria ser útil. Ele é piloto de drones, e por isso, há cerca de um ano, decidi juntar-me à pequena produção de drones”, explicou Yavorska à imprensa.

Começando com uma produção de 70 drones mensais, a equipa cresceu de seis para 40 pessoas, das quais 10 são mulheres, conseguindo agora fabricar milhares de drones por semana. A decisão de Yavorska representa a resposta de muitas mulheres ao conflito, que, mesmo tendo permissão para deixar o país, escolhem permanecer e ajudar a sustentar a economia e o esforço de guerra.

O aumento da participação feminina na defesa

As mulheres estão a preencher lacunas em vários setores, desde a construção civil ao transporte rodoviário, mas é na defesa onde se observa um crescimento expressivo. Na Ukroboronprom, principal empresa estatal de defesa da Ucrânia, 38% da força de trabalho é composta por mulheres, e o setor privado regista percentagens ainda mais elevadas.

Para Yuliia Vysotska, diretora de vendas da Praktika, uma empresa que, antes da guerra, se dedicava à produção de cofres e vidro à prova de balas, a adaptação ao cenário de guerra foi rápida. Em 2009, a Praktika desenvolveu o seu primeiro veículo blindado, o Kozak, que agora é usado pelas tropas ucranianas na linha de frente. “Na altura, ninguém se interessou. Mas continuámos a trabalhar e, quando a guerra começou, soubemos como reorientar a produção rapidamente”, afirmou Vysotska.

Líder da Liga de Empresas de Defesa Ucranianas, Vysotska afirma que o clima de urgência no país deixou pouco espaço para preconceitos. “Nunca enfrentei nenhuma forma de sexismo nesta indústria. Temos uma mulher à frente da principal agência de aquisição de defesa e outra como vice-ministra das indústrias estratégicas… as mulheres ocupam diversos cargos, e penso que é discriminatório sugerir que devam ser tratadas de forma especial”, disse.

A necessidade urgente de trabalhadores

Desde a invasão russa em fevereiro de 2022, a Ucrânia perdeu mais de 30% da sua força de trabalho — cerca de 5,5 milhões de pessoas — devido à mobilização militar, migração e ocupação de territórios. Este cenário levou à adaptação e resiliência das mulheres ucranianas, que tomaram a liderança em áreas tradicionalmente dominadas por homens.

“É crucial que as mulheres assumam um papel de liderança na economia do país. Os nossos homens protegem [a Ucrânia], e nós devemos ajudar, aprendendo novas profissões e adquirindo novas competências”, argumenta Yavorska, que agora trabalha à noite a soldar peças para drones. Apesar da dificuldade e do peso emocional, valoriza o trabalho que a mantém focada e útil, enquanto o marido arrisca a vida na guerra.

“É interessante. Aprendi a soldar. É difícil montar drones após o trabalho, mas ajuda-me a sentir útil e a não pensar constantemente no meu marido no campo de batalha. Acho que outras esposas de soldados deveriam fazer o mesmo para se distraírem”, sugere.

Resiliência e sacrifício em tempos de guerra

Valentyna, outra mulher a trabalhar na defesa, viu-se inesperadamente na linha da frente da resistência ucraniana. Presidente do conselho de uma empresa estatal de defesa, teve de interromper a licença de maternidade e, com a invasão, decidiu permanecer na fábrica que administrava, a qual abrigava cerca de 4.000 civis no seu abrigo antibombas. “Lembro-me do medo primitivo que senti ao ver o horizonte amarelo à noite. Estávamos a preparar-nos para parar o exército russo em Kyiv”, relembra.

Mesmo com o cerco à área, a produção continuou, e a escassez de alimentos tornou-se uma preocupação real. Com apenas um ovo por dia para partilhar entre alguns trabalhadores, Valentyna enfrentou dificuldades enquanto vários especialistas do setor, incluindo o seu próprio adjunto, se voluntariavam para combater, sendo substituídos por mulheres e reformados.

Hoje, grande parte da sua equipa é composta por funcionários idosos, cujo conhecimento técnico é indispensável. “O meu pessoal atual é, na maioria, bastante sénior. Sim, é difícil para eles, mas a sua experiência é inestimável, mesmo com alguns a ultrapassarem os 80 anos”, diz Valentyna.

Esperança e determinação

Após a retirada das forças russas de Kyiv, a vida na fábrica estabilizou, mas Valentyna continua a dormir frequentemente no escritório devido à carga de trabalho. Assume a responsabilidade de prover para o seu filho, que tem necessidades especiais e só consegue ver aos fins de semana, graças à ajuda da sua mãe.

Apesar das dificuldades, Valentyna destaca a importância do trabalho para a segurança do país. “Precisamos de aprender a fazer armas de qualidade, armazená-las bem e respeitá-las. As armas garantem a preservação das nossas vidas e de pelo menos mais uma geração, garantem que não nos ataquem. Afinal, o mais importante na vida é uma arma”, afirma.

Até que a segurança seja restaurada na Ucrânia, Valentyna mantém os seus planos pessoais em suspenso e está determinada em ajudar a proteger o país, reforçando a importância de uma indústria de defesa sólida e segura.

A participação feminina nas indústrias de defesa da Ucrânia tornou-se um símbolo de resiliência e resistência, com as mulheres a desempenharem um papel essencial na luta pela liberdade e na reconstrução do país.

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