A piscina da discórdia nos Olímpicos. Justificam-se as críticas de que é “mais lenta” por ser menos profunda?

Com apenas um recorde mundial batido até agora, e mesmo este envolto em suspeitas de doping, o questionamento é se a profundidade realmente influencia a velocidade dos nadadores.

Executive Digest
Agosto 2, 2024
17:35

Nos Jogos Olímpicos de Paris 2024, a piscina tem sido o epicentro de uma onda de polémicas e reclamações de atletas. A frustração com os resultados das provas de natação tem levado muitos a apontar o dedo para a profundidade da piscina, que com 2,15 metros é inferior aos 3 metros recomendados pela World Aquatics. Com apenas um recorde mundial batido até agora, e mesmo este envolto em suspeitas de doping, o questionamento é se a profundidade realmente influencia a velocidade dos nadadores.

O Mito da Profundidade
Após seis dias intensos de competições, a falta de recordes impressionantes é notável. Comparando com as edições anteriores, os Jogos de Tóquio 2020 viram seis recordes mundiais, enquanto no Rio 2016 foram oito. O que mudou? A piscina de Paris, com uma profundidade de 2,15 metros, tem sido apontada como o vilão desta história. A teoria popular sugere que uma menor profundidade reduz a flutuabilidade dos atletas, tornando a piscina mais lenta.

A World Aquatics, a entidade que supervisiona a natação mundial, recomenda piscinas com três metros de profundidade. Contudo, as regras atuais exigem uma profundidade mínima de 2,5 metros, norma que foi implementada depois da construção da piscina parisiense, que ficou aquém por 35 centímetros. Este detalhe técnico alimentou a crença de que a piscina mais rasa é a responsável pelos tempos menos impressionantes.

O Que Diz a Ciência?
Para desmistificar o impacto da profundidade na performance dos nadadores, ouvimos dois especialistas João Paulo Vilas-Boas, professor catedrático de Biomecânica da Universidade do Porto, e Albertinho, selecionador nacional de natação, explicaram alguns aspetos à Renascença.

Vilas-Boas, com uma carreira de mais de 20 anos como treinador de natação e atualmente vice-presidente do Comité Olímpico de Portugal (COP), desmente a ideia de que uma piscina mais rasa compromete a flutuabilidade e a velocidade. “Isso é um disparate total. É um erro gravíssimo da física”, afirma. O especialista explica que a força de impulsão hidrostática, baseada na diferença de pressão entre a parte superior e inferior do corpo, permanece constante independentemente da profundidade da piscina. “A diferença de pressões entre a barriga e as costas é a mesma, portanto, a força com que a água impulsiona o corpo para cima é rigorosamente a mesma”, conclui.

Albertinho também rejeita a teoria de que a piscina de Paris é a culpada pelos resultados medíocres. “Apontar a piscina como o fator para não haver resultados melhores é muito errado”, afirma o treinador, que destaca outras variáveis mais relevantes. Segundo ele, o calendário olímpico alterado devido à pandemia e a realização de um Campeonato do Mundo em fevereiro poderiam ter impactado o desempenho dos atletas. “Houve muitas mudanças no planeamento devido ao calendário alterado”, explica.

Não obstante, há opiniões divergentes. Daniel Marinho, responsável técnico da Federação Portuguesa de Natação (FPN) e professor da Universidade da Beira Interior, afirma que a menor profundidade da piscina pode afetar a dissipação da turbulência causada pelos nadadores. “Quanto mais profunda a piscina, mais espaço há para que a turbulência se dissipe e tenha um impacto reduzido à superfície”, diz Marinho.

Por outro lado, Jud Ready, especialista em piscinas da Escola de Tecnologia e Engenharia, defende que a profundidade de 2,5 metros, agora exigida, é “o número mágico” para dissipar energia. E Jacob Little, nadador britânico, menciona que, apesar das condições da piscina serem um pouco diferentes, isso não deve ser uma desculpa. “Algumas piscinas são ótimas, outras não. Parece um pouco estranho ser um pouco mais baixa, mas nada que não possamos lidar”, afirma Little.

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