Uma equipa de investigadores suecos descobriu emissões de metano extremamente elevadas a partir de lagos situados no interior da maior cratera de impacto de meteorito da Europa, o chamado anel de Siljan, no centro da Suécia. Os dados, recolhidos por cientistas da Universidade de Tecnologia de Chalmers, revelam níveis de libertação de metano até 300 vezes superiores ao que é normalmente observado em lagos, o que representa um potencial problema ambiental de grandes dimensões.
O anel de Siljan, com aproximadamente 52 quilómetros de diâmetro, é um vestígio geológico de um impacto pré-histórico. Na região existem vários lagos, sendo o maior o Lago Siljan, situado na extremidade sudoeste da cratera. Foi precisamente neste lago que os cientistas detetaram um fenómeno curioso: todos os invernos, apesar do frio intenso que congela a superfície do lago, há pequenas áreas que permanecem inexplicavelmente livres de gelo. Estas zonas abertas, chamadas de ice wakes (ou “despertares de gelo”), surgem recorrentemente nos mesmos locais, deixando os habitantes locais intrigados há anos.
Agora, a investigação liderada por Johan Mellqvist, professor de deteção remota ótica na Universidade de Chalmers, veio esclarecer parte do mistério. “As emissões naturais de metano nos lagos do anel de Siljan parecem ser muito mais extensas do que se pensava anteriormente”, afirmou Mellqvist. “Em certos locais, registámos taxas de emissão até 300 vezes superiores ao que é normalmente observado em lagos.”
Emissões localizadas e persistentes
Ao contrário do que é habitual, em que o metano se liberta em pequenas bolhas dispersas, os dados do Siljan apontam para emissões altamente concentradas, capazes de formar plumas gasosas detetáveis na atmosfera. “É incomum — e bastante estranho — que as emissões sejam tão extremamente localizadas”, sublinhou Mellqvist. “Até onde sabemos, este tipo de fuga de metano tão concentrada nunca foi medido antes num lago. E apenas examinámos uma pequena parte dos lagos do anel de Siljan. É possível que tenhamos visto apenas a ponta do icebergue.”
Para alcançar estas conclusões, os investigadores desenvolveram um novo método de deteção de metano com recurso a um gás traçador, permitindo-lhes mapear com precisão os locais onde as fugas ocorrem. Durante o estudo, foram identificadas duas zonas com 10 metros quadrados cada que libertavam grandes quantidades de metano, além de vários outros focos menores.
As medições foram realizadas em dois invernos consecutivos, em 2023 e 2024, e revelaram padrões consistentes de emissões. Num dos locais, os cientistas estimaram que são libertadas anualmente cerca de 3,5 toneladas de metano. Dado o potencial de aquecimento global deste gás, esta quantidade equivale a 85 toneladas de dióxido de carbono — o equivalente a conduzir um carro a gasolina por mais de 300 mil quilómetros, ou a distância entre Estocolmo e Sydney cinco vezes.
Origem incerta e implicações globais
A origem destas emissões permanece, para já, um enigma. Os investigadores estão a explorar várias hipóteses, sendo uma delas a possibilidade de o metano provir de camadas subterrâneas profundas. O impacto do meteorito, que deu origem à cratera de Siljan há cerca de 380 milhões de anos, poderá ter forçado matéria orgânica a grandes profundidades, onde continua a produzir metano até hoje.
Caso esta teoria se confirme, o fenómeno poderá ser exclusivo da região de Siljan. Contudo, se se verificar que o metano provém de sedimentos mais superficiais, tal poderá indicar que emissões semelhantes ocorrem noutros lagos do planeta, tendo passado despercebidas até agora.
A equipa de investigação já anunciou que vai expandir o estudo a uma área maior do anel de Siljan e analisar outros lagos próximos. Os resultados poderão ter implicações significativas na forma como se compreende e gere a libertação natural de gases com efeito de estufa.
“Se estudos futuros revelarem emissões em ainda maior escala, isso poderá justificar esforços para as reduzir”, acrescentou Mellqvist.
O metano é um dos gases com maior potencial de aquecimento global a curto prazo e, à medida que a crise climática se agrava, compreender — e eventualmente mitigar — fontes naturais de emissão como as do anel de Siljan pode tornar-se mais importante do que nunca.





