Portugal prepara-se para receber hoje uma nova carga de gás natural liquefeito proveniente da Rússia, numa operação que marca o regresso deste abastecimento ao país após seis meses. Segundo o jornal ‘Expresso’, o navio ‘Vladimir Voronin’, oriundo do porto de Sabetta, na península de Yamal, deverá atracar no terminal de Sines esta quinta-feira, pelas 7 horas, para descarregar gás destinado à infraestrutura da REN. Esta será a terceira entrega de GNL russo ao território nacional em 2025.
Embora não estejam detalhados os volumes exatos desta operação, tudo indica que o fornecimento rondará 1,1 TWh, à semelhança das descargas anteriores realizadas em fevereiro e maio. Com esta entrega, Portugal deverá fechar o ano com um total de 3,3 TWh de gás russo importado, igualando o registo de 2024 e mantendo uma trajetória inferior à de anos como 2021, quando o país recebeu 8,7 TWh.
O ‘Vladimir Voronin’, construído pela Daewoo e entregue em 2019 à Teekay LNG Partners, integra uma frota de seis navios concebidos para operar nas rotas árticas associadas ao empreendimento Yamal LNG. A presença regular destes carregamentos está ligada a contratos de longo prazo assinados em 2018 pela Naturgy, que mantiveram ativa a receção anual mínima de três navios desde 2022.
Peso do gás russo diminui, mas mantém-se relevante
De acordo com o semanário, em 2024 o gás russo representou 6,7% do aprovisionamento português, muito abaixo dos 51% da Nigéria e dos 40% dos EUA. Nos primeiros 11 meses de 2025, essa quota situou-se em 4,8%, devendo aproximar-se dos valores do ano anterior com a chegada desta nova carga.
A nível europeu, os dados da S&P Global Commodity Insights mostram que a União Europeia importou 16,4 mil milhões de metros cúbicos de GNL russo nos primeiros dez meses deste ano, sobretudo através de instalações em França, Bélgica, Espanha e Países Baixos. Embora a UE tenha avançado com vários pacotes de sanções desde 2022, nunca impôs uma proibição total à entrada de GNL por navio — situação que está prestes a mudar.
UE acelera calendário para proibição total do gás russo
Um novo acordo alcançado entre o Parlamento Europeu e os Estados-Membros define o fim das importações de gás russo no outono de 2027. A informação, avançada pela AFP, indica que a proibição dos contratos de longo prazo relativos a gás transportado por gasoduto entrará em vigor entre setembro e novembro de 2027, dependendo dos níveis de reserva. No caso do GNL, esses contratos ficarão proibidos a partir de 1 de janeiro de 2027.
Os contratos de curto prazo serão eliminados ainda mais cedo: em abril de 2026 para o GNL e em junho de 2026 para o gás transportado por gasoduto. As empresas poderão invocar “força maior” para justificar a quebra de acordos existentes, dado tratar-se de uma decisão formal da UE.
Estratégia europeia busca reduzir receita russa e reforçar diversificação
O objetivo central deste novo enquadramento legislativo é cortar de forma definitiva uma das principais fontes de receita energética da Rússia, quase quatro anos após a invasão da Ucrânia. A quota do gás russo nas importações europeias caiu de 45% em 2021 para 19% em 2024, mas o GNL acabou por compensar parcialmente a redução do fornecimento por gasoduto. Em 2024, a Rússia foi o segundo maior fornecedor de GNL da UE, logo atrás dos EUA, com cerca de 20 mil milhões de metros cúbicos.
O cenário abre caminho a uma redistribuição global do mercado, já que os volumes atualmente entregues na Europa terão de ser desviados para outros destinos, ao mesmo tempo que produtores como EUA, Nigéria ou Qatar poderão reforçar a sua presença no continente.
Consumo nacional mantém necessidade de diversificação
Portugal consome anualmente cerca de 3,8 mil milhões de metros cúbicos de gás natural, sendo que quase 62% se destinam a usos industriais e, em menor escala, domésticos e de serviços. A produção de eletricidade em centrais de ciclo combinado representa cerca de 28% do consumo.
Com o fim das importações russas já calendarizado a nível europeu e a inevitável reconfiguração das rotas globais de abastecimento, Portugal continuará dependente da diversificação de fornecedores, reforçando a posição estratégica do terminal de Sines nas próximas décadas.














