A incapacidade da NATO em adaptar rapidamente os seus processos de aquisição a uma ameaça assimétrica — como a dos drones russos — ficou em evidência nas últimas semanas, após incursões que violaram o espaço aéreo polaco e obrigaram a uma resposta aérea dispendiosa. Numa reportagem da CNN Iternacional, especialistas e empresas do sector defendem que soluções mais ligeiras e ágeis — incluindo drones nacionais como os desenvolvidos pela portuguesa Tekever — poderão ser parte da resposta, desde que os Estados acelerem procedimentos e partilhem riscos com a indústria.
A assimetria de custos é apontada como um problema central. Fragmentos recuperados pelas autoridades polacas apontam para drones simples — fabricados em contraplacado e esferovite — cujo custo de produção pode rondar os 8.500 euros, enquanto os jactos F-16 ou F-35 usados para os intercetar são aparelhos multimilionários com elevadas despesas de combustível e manutenção. “A assimetria de custos não funciona”, resume Robert Tollast, investigador do think tank RUSI, citado pela CNN.
A tecnologia relativamente barata existe e tem sido testada na Ucrânia, mas a adoção nos países da NATO esbarra em processos de aquisição lentos e especificações técnicas antiquadas. Johannes Pinl, CEO da MARSS (Reino Unido), afirmou que “os sistemas de aquisição da NATO ainda estão nos anos 80” e deu como exemplo um intercetor de médio alcance com IA que a sua empresa já usa em operações, mas que aguarda avaliação formal por um Estado-membro. Para Pinl, “provavelmente, uma boa parte da fronteira polaca podia estar agora coberta por uma bela parede de drones”.
O caso da Tekever, startup portuguesa, mostra que é possível acelerar: o AR3 foi comprado pelo Reino Unido em grande escala para apoio à Ucrânia e vai integrar o sistema britânico de guerra eletrónica StormShroud; a empresa anunciou a abertura de uma nova fábrica no Reino Unido para aumentar produção. Karl Brew, diretor da unidade de defesa da Tekever, explicou que a RAF capitalizou experiência em I&D e em combate na Ucrânia e conseguiu adaptar tecnologia em apenas seis meses, graças à partilha de risco entre governo e indústria.
Pequenos Estados e startups do Báltico confirmam outra via de inovação. A Letónia, por exemplo, desenvolveu mecanismos para colaborar com a indústria local e já emprega drones como o BEAK e intercetadores como o BLAZE, financiados por bolsas governamentais. Do lado dos decisores militares, Richard Knighton, chefe do Estado-Maior britânico, apelou a “mudar a nossa relação com a indústria para inovar ao ritmo da guerra”, enquanto nos EUA o secretário da Guerra, Pete Hegseth, propôs medidas para reduzir burocracia e delegar autoridade de aquisição para as tropas.
Ainda assim, a escala do desafio russo é avassaladora: estimativas dos serviços de informação ucranianos apontam para uma produção russa de 5.500 drones por mês numa fábrica no Tartaristão e ataques que já chegaram a várias centenas de drones numa única noite. A indústria europeia responde também em volume — a Nammo elevou dramaticamente a sua produção de munições — mas, como advertiu Morten Brandtzaeg, CEO da Nammo, “estamos apenas no início do início do aumento da capacidade. Não acreditem que já fizemos o suficiente”.








