A Liga dos Bombeiros Portugueses e o Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar estão a contestar as novas regras de triagem do INEM, em vigor desde 2 de janeiro, alertando para o risco de constrangimentos no socorro e para a deterioração da relação entre os bombeiros e as populações. As alterações ao algoritmo de triagem, que introduzem cinco níveis de prioridade com tempos de resposta até 120 minutos, foram implementadas sem acordo com os bombeiros, denunciam.
Ao ‘Diário de Notícias’, o presidente do STEPH, Rui Lázaro, critica o princípio subjacente ao novo modelo. “Ou há situações emergentes ou não emergentes. Se é emergente, uma equipa tem de ir ao local, era assim anteriormente”, afirma, alertando que a nova priorização pode levar à repetição de atrasos no acionamento de meios.
As críticas são ainda mais duras por parte da Liga dos Bombeiros Portugueses. O presidente, António Nunes, acusa o INEM de ter avançado unilateralmente com alterações à tipologia da triagem, sem informar nem negociar com o seu principal parceiro operacional, lembrando que os bombeiros asseguram cerca de 90% do transporte em situações de socorro.
“Quando se trata de mudanças nas regras, estas não podem ser transmitidas numa conversa. Têm de ser acordadas e firmadas por escrito num protocolo”, afirma António Nunes ao DN, acrescentando que, sem regras claras, “quando estas falharem, não se saberá de quem é a responsabilidade”.
A Liga dos Bombeiros só será formalmente informada sobre o novo modelo numa reunião marcada com o presidente do INEM, depois de as regras já estarem em vigor, o que considera inaceitável.
Relação com as populações em risco
Um dos principais receios dos bombeiros prende-se com o impacto do novo sistema junto das populações, sobretudo em zonas de menor densidade. António Nunes alerta que a priorização pode tornar impossível explicar porque é que uma ambulância disponível num quartel não é acionada de imediato, apesar de existir um pedido de socorro.
“O INEM não pode impor regras que coloquem em causa a relação dos bombeiros com a sua população. Não vamos aceitar isso”, garante o presidente da Liga. O responsável defende que modelos semelhantes podem funcionar em contexto de catástrofe, quando a procura excede claramente os meios disponíveis, mas não no funcionamento diário do socorro.
Sistema não adaptado ao território
Os bombeiros sublinham ainda que a importação de modelos europeus de gestão de prioridades não pode ser feita sem adaptação à realidade portuguesa. António Nunes lembra que o país tem grandes assimetrias territoriais e operacionais, com diferenças profundas entre áreas metropolitanas e regiões do interior.
“Não é a mesma coisa gerir ambulâncias em Lisboa ou no Porto do que em distritos como Bragança, Guarda ou Portalegre”, explica, defendendo que a nova lógica de acionamento centralizado pelo CODU levanta dúvidas operacionais e éticas quando existem meios disponíveis no terreno.
Apesar das críticas, a Liga dos Bombeiros Portugueses garante não estar contra mudanças, mas exige que estas sejam discutidas, testadas e formalmente acordadas. “Não sabemos se o sistema é bom ou mau porque não o conhecemos ao detalhe”, conclui António Nunes, insistindo que decisões desta natureza não podem ser tomadas sem os parceiros que asseguram o socorro no terreno.














