“Não vamos aceitar”: bombeiros contestam mudanças no socorro do INEM

Alterações ao algoritmo de triagem, que introduzem cinco níveis de prioridade com tempos de resposta até 120 minutos, foram implementadas sem acordo com os bombeiros, denunciam

Revista de Imprensa
Janeiro 8, 2026
9:57

A Liga dos Bombeiros Portugueses e o Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar estão a contestar as novas regras de triagem do INEM, em vigor desde 2 de janeiro, alertando para o risco de constrangimentos no socorro e para a deterioração da relação entre os bombeiros e as populações. As alterações ao algoritmo de triagem, que introduzem cinco níveis de prioridade com tempos de resposta até 120 minutos, foram implementadas sem acordo com os bombeiros, denunciam.

Ao ‘Diário de Notícias’, o presidente do STEPH, Rui Lázaro, critica o princípio subjacente ao novo modelo. “Ou há situações emergentes ou não emergentes. Se é emergente, uma equipa tem de ir ao local, era assim anteriormente”, afirma, alertando que a nova priorização pode levar à repetição de atrasos no acionamento de meios.

As críticas são ainda mais duras por parte da Liga dos Bombeiros Portugueses. O presidente, António Nunes, acusa o INEM de ter avançado unilateralmente com alterações à tipologia da triagem, sem informar nem negociar com o seu principal parceiro operacional, lembrando que os bombeiros asseguram cerca de 90% do transporte em situações de socorro.

“Quando se trata de mudanças nas regras, estas não podem ser transmitidas numa conversa. Têm de ser acordadas e firmadas por escrito num protocolo”, afirma António Nunes ao DN, acrescentando que, sem regras claras, “quando estas falharem, não se saberá de quem é a responsabilidade”.

A Liga dos Bombeiros só será formalmente informada sobre o novo modelo numa reunião marcada com o presidente do INEM, depois de as regras já estarem em vigor, o que considera inaceitável.

Relação com as populações em risco

Um dos principais receios dos bombeiros prende-se com o impacto do novo sistema junto das populações, sobretudo em zonas de menor densidade. António Nunes alerta que a priorização pode tornar impossível explicar porque é que uma ambulância disponível num quartel não é acionada de imediato, apesar de existir um pedido de socorro.

“O INEM não pode impor regras que coloquem em causa a relação dos bombeiros com a sua população. Não vamos aceitar isso”, garante o presidente da Liga. O responsável defende que modelos semelhantes podem funcionar em contexto de catástrofe, quando a procura excede claramente os meios disponíveis, mas não no funcionamento diário do socorro.

Sistema não adaptado ao território

Os bombeiros sublinham ainda que a importação de modelos europeus de gestão de prioridades não pode ser feita sem adaptação à realidade portuguesa. António Nunes lembra que o país tem grandes assimetrias territoriais e operacionais, com diferenças profundas entre áreas metropolitanas e regiões do interior.

“Não é a mesma coisa gerir ambulâncias em Lisboa ou no Porto do que em distritos como Bragança, Guarda ou Portalegre”, explica, defendendo que a nova lógica de acionamento centralizado pelo CODU levanta dúvidas operacionais e éticas quando existem meios disponíveis no terreno.

Apesar das críticas, a Liga dos Bombeiros Portugueses garante não estar contra mudanças, mas exige que estas sejam discutidas, testadas e formalmente acordadas. “Não sabemos se o sistema é bom ou mau porque não o conhecemos ao detalhe”, conclui António Nunes, insistindo que decisões desta natureza não podem ser tomadas sem os parceiros que asseguram o socorro no terreno.

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