“Não quero viver num império americano”: Gronelandeses rejeitam ameaças dos EUA

O que poucos antecipavam era que este território do Ártico, com cerca de 60 mil habitantes, se tornasse subitamente um dos centros da disputa geopolítica global.

Pedro Gonçalves
Janeiro 12, 2026
14:02

Durante décadas, a Gronelândia foi associada, no imaginário coletivo, a glaciares, ursos polares e paisagens geladas praticamente intocadas. O que poucos antecipavam era que este território do Ártico, com cerca de 60 mil habitantes, se tornasse subitamente um dos centros da disputa geopolítica global. É precisamente isso que está a acontecer, num contexto que tem provocado indignação, receio e uma crescente resistência interna.

As declarações de vários gronelandeses, recolhidas pelo Financial Times, refletem um sentimento generalizado de rejeição face às recentes ameaças e à retórica oriunda de Washington, interpretadas localmente não como diplomacia, mas como sinais de uma ambição imperial moderna. “Não quero viver num império americano”, afirmou um cidadão da Gronelândia, numa frase que passou a ecoar em comunidades locais, vilas piscatórias e no debate político do território.

Do ponto de vista dos Estados Unidos, a Gronelândia assume um valor estratégico elevado. A sua localização no Ártico torna-a uma plataforma militar relevante, sobretudo num cenário de crescente rivalidade com a Rússia e a China. A ilha possui ainda reservas significativas de minerais raros e outros recursos naturais considerados críticos num mundo em transição energética.

Os EUA mantêm há décadas uma presença militar no território, através da base espacial de Pituffik, anteriormente conhecida como Base Aérea de Thule, uma peça central do sistema norte-americano de defesa antimíssil. No entanto, nos últimos anos, o discurso político em Washington deixou de se centrar exclusivamente na cooperação e passou a assumir um tom mais assertivo, que muitos gronelandeses classificam como agressivo.

Sugestões de que os Estados Unidos poderiam “adquirir” a Gronelândia ou avançar independentemente da vontade da população local foram encaradas como uma linha vermelha. O que em Washington pode soar a planeamento estratégico, em Nuuk foi entendido como uma ameaça directa à soberania.

Um passado colonial que torna as ameaças pessoais
A reação da população gronelandesa está profundamente enraizada na sua história. Durante séculos, a Gronelândia foi uma colónia da Dinamarca, com decisões fundamentais sobre território, cultura e recursos tomadas externamente, muitas vezes com consequências devastadoras para as comunidades inuítes.

Embora o território tenha conquistado o regime de autonomia em 1979 e alargado os seus poderes de autogoverno em 2009, as marcas do colonialismo continuam presentes. Esse passado explica a sensibilidade extrema dos gronelandeses quando potências estrangeiras falam da ilha como um activo estratégico, ignorando a dimensão humana e social.

Para muitos, a actual retórica norte-americana desperta memórias desconfortáveis de um tempo em que o futuro da Gronelândia era decidido sem os gronelandeses à mesa das negociações.

Unidade política em torno da autodeterminação
Face à pressão externa, os líderes políticos da Gronelândia têm demonstrado uma rara convergência. Em todo o espectro partidário, foi rejeitada a possibilidade de integração nos Estados Unidos e reafirmado o direito à autodeterminação.

Mesmo partidos que divergem quanto ao ritmo ou às condições de uma eventual independência face à Dinamarca concordam num ponto essencial: qualquer forma de coerção estrangeira é inaceitável. A mensagem é clara de que o futuro da Gronelândia pertence exclusivamente aos seus habitantes.

Esse posicionamento é partilhado pela sociedade civil. Pescadores, professores, estudantes e idosos manifestam preocupação com a possibilidade de o território ser reduzido a uma base militar ou a uma zona de extracção mineira. A ideia de trocar uma potência colonial por outra é amplamente rejeitada.

Receio de se tornar peça num jogo de grandes potências
O maior receio da população não é a cooperação internacional, mas a perda de controlo. Existe abertura para parcerias com os Estados Unidos e outros países, desde que assentem no respeito mútuo e no consentimento democrático. No entanto, ameaças e linguagem desvalorizadora minam a confiança e alimentam a desconfiança.

Muitos gronelandeses temem que o agravamento das tensões geopolíticas transforme a ilha numa moeda de troca entre superpotências, relegando as vozes locais para segundo plano perante prioridades militares e interesses económicos globais. Para uma população reduzida, o desequilíbrio de poder é sentido de forma particularmente intensa.

A Dinamarca, responsável pelas relações externas e pela defesa da Gronelândia, encontra-se numa posição delicada. As autoridades dinamarquesas rejeitaram de forma firme qualquer sugestão de que o território possa ser pressionado ou tomado pela força, classificando essa retórica como perigosa e desestabilizadora, sobretudo entre aliados da NATO.

Ao mesmo tempo, Copenhaga tem de respeitar a autonomia gronelandesa e a crescente discussão interna sobre uma eventual independência plena. O caso levanta uma questão mais ampla sobre a capacidade de pequenos territórios se protegerem quando passam a ser considerados estratégicos pelas grandes potências.

Pressão externa reforça debate sobre independência
De forma paradoxal, a pressão exercida pelos Estados Unidos poderá estar a acelerar um processo que Washington não pretendia estimular. O debate sobre a independência da Gronelândia, há muito presente na sociedade, ganhou novo fôlego.

Cada vez mais gronelandeses encaram a autodeterminação não apenas como uma ambição política, mas como uma necessidade para garantir a sobrevivência cultural e política num sistema internacional marcado por rivalidades agressivas. A mensagem transmitida é inequívoca: a Gronelândia não quer pertencer ao império de ninguém.

Para observadores externos, a Gronelândia surge frequentemente como um espaço vazio no mapa, definido pelo gelo, pelos recursos naturais e pelo seu valor militar. Para quem lá vive, é muito mais do que isso.

É língua, cultura, identidade e memória colectiva. É uma sociedade que ainda lida com as consequências do colonialismo e que está determinada a não repetir esse passado sob outra bandeira. Quando os gronelandeses afirmam que não querem viver num império americano, não estão a rejeitar cooperação internacional, mas sim a recusar qualquer forma de dominação.

Num mundo em que o poder tende a sobrepor-se às pessoas, a posição da Gronelândia recorda que a soberania não se mede pela dimensão territorial, mas pela vontade de quem habita a terra.

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