Menos de uma semana após ter sido eleito líder da Igreja Católica, o Papa Leão XIV colocou a inteligência artificial (IA) no centro das suas prioridades pastorais, alertando para os riscos que esta representa para a dignidade humana, a justiça social e o futuro do trabalho. Com um discurso contundente e informado, o novo pontífice lançou um apelo à responsabilidade ética, não apenas à comunidade católica, mas à sociedade global.
“Não é um problema católico, é um problema humano”, afirmou o sacerdote Brendan McGuire, conselheiro de empresas tecnológicas em Silicon Valley, alinhando-se com a mensagem lançada pelo Papa.
Leão XIV, nascido Robert Francis Prevost, traz consigo uma formação académica em matemática e uma sólida experiência na estrutura interna do Vaticano, onde anteriormente dirigiu o dicastério responsável pelos nomeações episcopais. Ainda antes da sua eleição, demonstrava um vivo interesse pelos impactos da revolução digital na vida humana e espiritual. Em setembro de 2024, convocou uma reunião com líderes da Santa Sé para refletirem sobre os desafios da vida digital, encontro esse organizado com o apoio do franciscano Paolo Benanti, principal assessor do Vaticano em ética tecnológica.
“Há 15 anos achavam-me louco por estudar cíborgues. Agora é o primeiro tema de um Papa”, comentou Benanti ao El Español, sublinhando a viragem histórica da Igreja na abordagem à tecnologia.
Durante o seu discurso inaugural perante o Colégio Cardinalício, Leão XIV reconheceu o “imenso potencial” da inteligência artificial, mas sublinhou que o seu desenvolvimento “deve estar orientado pela responsabilidade ética e pelo bem comum”.
Mais tarde, em declarações à imprensa, reiterou a necessidade de evitar que esta tecnologia caia nas mãos da “ganância” ou de um “poder desmedido”, como já havia sido avançado pelo The New York Times.
Um alerta em tom mais grave que o do antecessor
Embora o Papa Francisco também tenha alertado para os perigos da IA — apelando a que esta fosse usada para resolver problemas sociais e não como instrumento de dominação — Leão XIV elevou o tom, estabelecendo uma ligação direta entre os abusos da revolução digital e os abusos laborais denunciados pelo Papa Leão XIII na encíclica Rerum Novarum, em plena era industrial.
A analogia não é casual: “Como então, vivemos uma transformação abrupta. Governos e empresas investem a uma velocidade vertiginosa, enquanto a regulação internacional continua largamente ausente”, referiu Leão XIV.
Nos Estados Unidos, por exemplo, travar o avanço da IA é encarado como um risco estratégico perante o crescimento tecnológico da China. E, para muitos líderes tecnológicos, a IA é apresentada com um fervor quase messiânico, como se fosse a nova eletricidade ou o próximo internet.
Contudo, os efeitos colaterais já são evidentes: vídeos falsificados com aparência real, algoritmos que interferem em decisões sobre crédito ou cuidados médicos, armas autónomas sem controlo humano ou a destruição em massa de postos de trabalho são apenas algumas das ameaças concretas. O Fundo Monetário Internacional estima que cerca de 40% dos empregos globais serão alterados por esta tecnologia.
A tradição da Igreja não rejeita o progresso
A Igreja Católica tem uma longa tradição de envolvimento com o avanço tecnológico. No passado, monges medievais impulsionaram inovações como as tecnologias hidráulicas, e o próprio Vaticano está hoje atento ao potencial positivo da IA: existem aplicações como a Magisterium AI, que ajudam os padres a preparar homilias, ou chatbots que respondem a perguntas sobre temas como o pecado, o desejo ou até os limites da tatuagem à luz da doutrina.
No entanto, Leão XIV não quer que a Igreja seja apenas uma utilizadora passiva destas ferramentas. O seu apelo é claro: é preciso educar para um uso crítico, ético e consciente da tecnologia. “Não se trata de desligar os meios, mas de ensinar a pensar criticamente”, afirmou numa entrevista em 2012, quando ainda era bispo, antecipando preocupações que hoje, do trono de São Pedro, ganham peso global.
Reações e desafios além do Vaticano
Em Berlim, o padre Josef Wieneke expressou alívio com as palavras do Papa. Na sua paróquia, que conta com 12 mil fiéis, há preocupações reais com os efeitos da IA: “Já há pais com medo de que os filhos sejam vítimas de desinformação ou de que os seus empregos desapareçam por causa dos algoritmos”, contou. “Os editores já me pedem nomes de teólogos que possam escrever sobre o tema.”
No entanto, nem todos acreditam que o Papa consiga influenciar diretamente os grandes centros de decisão tecnológica. “É difícil que consiga mudar o rumo das grandes empresas ou da legislação”, advertiu Stephen N. Williams, teólogo emérito em Belfast.
Outros, como Matthew Sanders, criador da Magisterium AI, acreditam que o papel do Papa deve ser mais espiritual do que político: “O objetivo não é fiscalizar governos ou empresas, mas oferecer consolo espiritual às vítimas desta revolução”.














