A ofensiva híbrida lançada pelo Kremlin contra a União Europeia reacendeu as clivagens entre Estados-membros do norte e do leste, em alerta máximo perante as ameaças russas, e os países do sul, que continuam a encarar Moscovo como um risco distante.
O tema central é o Muro Antidrones, projeto emblemático da UE para proteger o flanco oriental das incursões russas e que será discutido esta quarta-feira, 1 de outubro, na cimeira informal de líderes europeus em Copenhaga, marcada por fortes medidas de segurança.
Finlândia exige apoio financeiro do sul
O primeiro-ministro finlandês, Petteri Orpo, desencadeou o debate ao apelar a “solidariedade” dos parceiros do sul na partilha dos custos do Muro Antidrones.
“Demonstrámos solidariedade económica com o sul da Europa durante 20 anos. Agora esperamos solidariedade em matéria de segurança”, afirmou Orpo, defendendo que as verbas europeias para a Defesa devem privilegiar os países da linha da frente.
Na mesma linha, o ministro da Defesa da Finlândia, Antti Hakkanen, reforçou o pedido, mencionando diretamente Espanha e Portugal: “O norte de Europa foi bastante solidário com o sul durante a pandemia e agora é o nosso turno. Os países do flanco leste e norte devem ter também a solidariedade da Europa ocidental e do sul”.
Cimeira em Copenhaga sob vigilância apertada
A capital dinamarquesa recebe a cimeira europeia num clima de alerta elevado, após sucessivas incursões de drones nos últimos dias, cuja autoria permanece incerta. O governo de Copenhaga proibiu todos os voos de drones durante cinco dias e solicitou apoio da NATO para garantir a segurança dos líderes.
Alemanha, França, Suécia e Países Baixos já enviaram sistemas antidrones, enquanto a Aliança Atlântica mobilizou a fragata Hamburgo.
As manobras de drones e caças russos têm aumentado nos últimos meses, atingindo países como Polónia, Estónia, Finlândia, Lituânia, Letónia, Noruega e Roménia. O ministro alemão da Defesa, Boris Pistorius, alertou que “a Rússia está a tornar-se cada vez mais uma ameaça para a NATO”.
O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, foi ainda mais incisivo: “Hoje, a tarefa mais importante para qualquer líder político é garantir que a nossa comunidade ocidental e transatlântica compreenda que este é um novo tipo de guerra. Estranha, não desejada, mas é uma guerra”.
O comissário europeu da Defesa, Andrius Kubilius, defende que a fase inicial do Muro Antidrones poderá estar operacional no prazo de um ano. No entanto, o projeto ainda não tem orçamento definido.
Bruxelas sugere recorrer ao fundo extraordinário SAFE, dotado de 150 mil milhões de euros, embora dois terços desse montante já estejam reservados para países do norte e leste. Espanha, por exemplo, apenas pediu 1.000 milhões. Helsínquia recusa este mecanismo, argumentando que são créditos a reembolsar e, portanto, não representam solidariedade efetiva.
A Comissão Europeia, liderada por Ursula von der Leyen, afastou até agora a hipótese de emitir dívida conjunta para financiar a Defesa. Em alternativa, propõe aumentar para 131 mil milhões de euros a verba destinada ao setor no próximo orçamento plurianual (2028-2034), embora os fundos só chegassem demasiado tarde para as necessidades atuais.
Costa apela a aumento “massivo” da despesa em defesa
Em visita a Madrid, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, defendeu que todos os Estados da União devem aumentar “massivamente” os seus investimentos em Defesa.
“Como ibérico, sei que pode parecer que a guerra na Ucrânia é um conflito distante, mas isso é uma ilusão. Quanto mais avançar a integração europeia, menos haverá problemas do norte ou do sul. Todos são desafios europeus, porque somos uma só União”, afirmou.
Costa recordou ainda que, em 2005, o então ministro espanhol Alfredo Pérez Rubalcaba pediu solidariedade europeia após os assaltos às vedações de Ceuta e Melilla, num tema que os países do norte e leste consideravam então alheio. “Vinte anos depois, ninguém duvida de que a migração é um dos maiores desafios da Europa”, assinalou.
“A paz sem Defesa é uma ilusão. O poder brando por si só não chega num mundo em que o poder duro prevalece cada vez mais”, concluiu o líder europeu.














