Moradores do Bairro Alto unem-se contra a “disneylândia do álcool” e criam associação cívica

O Bairro Alto, outrora símbolo da boémia lisboeta, vive hoje um clima de tensão entre moradores e a vida noturna que o tornou famoso. Cansados do ruído, da sujidade e do que descrevem como uma “monocultura etílica”, os residentes decidiram unir esforços e criar a associação Somos Bairro Alto, que promove no próximo dia 15 de novembro, às 15h30, no Mercado de Ofícios do Bairro Alto (MOBA), a sua primeira assembleia aberta para discutir soluções para o futuro do bairro.

Pedro Gonçalves
Novembro 11, 2025
18:48

O Bairro Alto, outrora símbolo da boémia lisboeta, vive hoje um clima de tensão entre moradores e a vida noturna que o tornou famoso. Cansados do ruído, da sujidade e do que descrevem como uma “monocultura etílica”, os residentes decidiram unir esforços e criar a associação Somos Bairro Alto, que promove no próximo dia 15 de novembro, às 15h30, no Mercado de Ofícios do Bairro Alto (MOBA), a sua primeira assembleia aberta para discutir soluções para o futuro do bairro.

De acordo com o Público, o movimento surge como resposta a um quotidiano que muitos consideram insustentável. “Quase todas as manhãs, quando levo a minha filha à escola, encontro lixo no chão, copos de plástico e um cheiro intenso a urina. É insuportável ver isto repetir-se e ninguém fazer nada”, lamenta Cláudia Paixão, moradora na Rua dos Mouros há 15 anos. Apesar de viver numa rua sem bares, diz que é ali que acabam as multidões vindas das zonas de diversão noturna. “Às três ou quatro da manhã há pessoas sentadas no passeio, com colunas de som, a beber e a fazer barulho. De manhã, há rios de urina”, descreve.

Segundo Fabiana Pavel, uma das fundadoras da associação, o bairro atingiu um ponto crítico. “O Bairro Alto tornou-se a ‘disneylândia do álcool’. A vida diurna e noturna conviviam em harmonia, mas agora instalou-se a ideia de que tudo é permitido”, afirma, denunciando uma atitude de passividade das autoridades perante os excessos. As queixas são antigas — ruído, insegurança, tráfico e falta de higiene —, mas os residentes acreditam que a situação se agravou drasticamente nos últimos anos, empurrando muitos para fora do bairro.

A associação alerta ainda para o impacto da especulação imobiliária e da proliferação de alojamentos locais, que, somados ao turismo do álcool, estão a acelerar o esvaziamento residencial. “Há turistas que voltam bêbedos e batem às portas erradas. Já houve casos de pessoas a urinar nas escadas”, conta Fabiana. Cláudia confirma o cenário e fala numa “atitude colonial” de alguns visitantes, lembrando que “há senhorios que só arrendam a estrangeiros”, o que contribui para a descaracterização social do bairro.

Entre os problemas denunciados está também um clima de intimidação. “Os moradores mais velhos têm medo de fazer queixas”, diz Fabiana Pavel, que acusa os empresários da noite de beneficiarem de lucros tão elevados que “qualquer multa aplicada é irrelevante”. A fundadora da associação acrescenta que alguns donos de bares compram apartamentos nos prédios próximos para alojar funcionários ou simplesmente os manter vazios, o que, segundo afirma, “aumenta o ruído e acelera a expulsão dos residentes”.

O presidente da Associação de Comerciantes do Bairro Alto (ACBA), Hilário Castro, reconhece a degradação da vida noturna, mas pede equilíbrio. “O problema está na falta de fiscalização e de aplicação das regras. No dia em que se matar a noite do Bairro Alto, a cidade morre turisticamente”, alerta. Ainda assim, os moradores garantem que não querem acabar com a vida noturna — apenas devolver ao bairro o direito ao descanso e à convivência pacífica que, para muitos, há muito desapareceu.

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