Montenegro atira remodelação do Governo para depois da crise do mau tempo: há duas ministras na ‘corda-bamba’

Futuro político de Maria Lúcia Amaral à frente do Ministério da Administração Interna parece cada vez mais comprometido

Revista de Imprensa
Fevereiro 6, 2026
9:14

O futuro político de Maria Lúcia Amaral à frente do Ministério da Administração Interna parece cada vez mais comprometido. Ultrapassada a fase mais aguda da resposta à intempérie que atingiu o país, cresce no Governo e no PSD a convicção de que a ministra deverá abandonar o cargo numa futura remodelação, segundo avançou esta sexta-feira o jornal ‘Observador’.

Apesar do reconhecimento generalizado da sua preparação académica e jurídica, fontes sociais-democratas admitem que a ex-provedora de Justiça e antiga vice-presidente do Tribunal Constitucional não conseguiu demonstrar competências políticas consideradas essenciais para uma pasta de elevada pressão e exposição pública como a Administração Interna. A dificuldade em lidar com momentos de crise e comunicação mediática tornou-se, para muitos, um fator decisivo.

Não existe, contudo, um calendário definido para a saída. De acordo com o jornal online, Maria Lúcia Amaral reuniu-se recentemente com o primeiro-ministro, Luís Montenegro, encontro que alimentou rumores de uma saída iminente, mas no qual o tema não terá sido diretamente abordado. No núcleo duro do chefe do Governo, a ideia dominante é que a ministra não deixará funções enquanto a situação no país não estiver estabilizada.

Fragilidades na comunicação pública

Nos bastidores, é apontado um padrão que se foi repetindo ao longo do mandato. Enquanto nos Conselhos de Ministros as intervenções da ministra são descritas como sólidas e bem fundamentadas, em público Maria Lúcia Amaral tem revelado dificuldades evidentes na comunicação política, sobretudo em momentos de maior tensão. Esta fragilidade já tinha ficado exposta durante os incêndios de 2025 e voltou a manifestar-se no início de 2026, no contexto da tempestade Kristin.

No verão passado, a presença tardia no terreno, declarações controversas sobre meios aéreos e episódios que suscitaram críticas públicas colocaram a ministra numa posição delicada. Durante a recente intempérie, o padrão repetiu-se, com declarações sobre “aprendizagem coletiva”, referências à complexidade do sistema de Proteção Civil e a admissão de que não sabia exatamente o que tinha falhado, contribuindo para o desgaste político.

Fontes próximas do primeiro-ministro sublinham que uma coisa é cometer uma gafe pontual, algo relativamente comum em contextos de crise, e outra bem diferente é não conseguir evitá-las de forma recorrente. É esta incapacidade que, segundo o ‘Observador’, terá pesado mais na avaliação interna sobre a continuidade da ministra.

Pressão para encontrar sucessor

Nos corredores do poder, já começou a circular uma lista informal de possíveis sucessores, com vários nomes a serem equacionados. Ainda assim, prevalecem três princípios atribuídos à estratégia de Luís Montenegro: o controlo do tempo político pertence ao primeiro-ministro; quanto maior a pressão externa, maior a resistência em agir de imediato; e qualquer escolha final será tomada de forma reservada pelo próprio.

A pressão sobre o chefe do Governo é significativa. O Ministério da Administração Interna é tradicionalmente uma das pastas mais sensíveis e Montenegro já teve dois dossiês problemáticos nesta área. A primeira escolha, Margarida Blasco, revelou-se um erro político evidente; a segunda, Maria Lúcia Amaral, apesar da experiência institucional, não conseguiu demonstrar a capacidade de comunicação exigida nos momentos mais críticos. Dois erros de casting que reduzem a margem para uma nova falha.

Remodelação mais alargada em aberto

A eventual saída da ministra da Administração Interna cruza-se com um debate mais amplo sobre uma remodelação governamental. A pressão interna para dar um novo impulso ao Executivo existe desde a derrota de Marques Mendes nas eleições presidenciais e intensificou-se com a ascensão de André Ventura e o reposicionamento do PS. A crise provocada pela tempestade Kristin agravou ainda mais o desgaste do Governo.

A este contexto soma-se a crise na Saúde. A ministra Ana Paula Martins mantém-se em funções graças às reiteradas demonstrações de confiança de Luís Montenegro, mas fontes governamentais admitem que a sua continuidade também não é um dado adquirido caso avance uma remodelação mais profunda.

Apesar disso, elementos do núcleo mais restrito do Governo lembram ao ‘Observador’ que o Executivo tem formalmente apenas seis meses de mandato e que uma remodelação alargada poderá ser vista como prematura. Além disso, não corresponde ao padrão estratégico do primeiro-ministro. Até que o mau tempo dê tréguas, a prioridade continuará a ser a gestão da crise no terreno, com as decisões políticas mais sensíveis adiadas para um momento de maior estabilidade.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.