Míssil proibido regressa ao campo de batalha: Rússia desafia o Ocidente com arma que rompeu pacto nuclear com Trump

A Ucrânia acusou a Rússia de ter utilizado, nos últimos meses, um míssil de cruzeiro cujo desenvolvimento secreto esteve na origem da decisão de Donald Trump de abandonar um importante pacto de controlo de armas nucleares com Moscovo. Segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Andrii Sybiha, trata-se do 9M729 — um míssil lançado do solo que, até agora, não tinha sido confirmado em combate. De acordo com a agência ‘Reuters’, esta é a primeira confirmação oficial da utilização do 9M729 pela Rússia, tanto na guerra na Ucrânia como em qualquer outro conflito. Um segundo responsável ucraniano indicou que…

Francisco Laranjeira
Outubro 31, 2025
16:47

A Ucrânia acusou a Rússia de ter utilizado, nos últimos meses, um míssil de cruzeiro cujo desenvolvimento secreto esteve na origem da decisão de Donald Trump de abandonar um importante pacto de controlo de armas nucleares com Moscovo.

Segundo o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Andrii Sybiha, trata-se do 9M729 — um míssil lançado do solo que, até agora, não tinha sido confirmado em combate.

De acordo com a agência ‘Reuters’, esta é a primeira confirmação oficial da utilização do 9M729 pela Rússia, tanto na guerra na Ucrânia como em qualquer outro conflito. Um segundo responsável ucraniano indicou que o míssil foi disparado 23 vezes desde agosto, além de dois lançamentos registados em 2022. O Ministério da Defesa russo não respondeu a pedidos de comentário.

Míssil proibido pelo tratado INF

O míssil 9M729 foi o principal motivo da retirada dos Estados Unidos do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermédio (INF) em 2019. Washington acusou Moscovo de violar o acordo, que proibia o desenvolvimento de mísseis lançados do solo com alcance entre 500 e 5.500 quilómetros. Segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), o 9M729 pode transportar ogivas nucleares ou convencionais e atingir até 2.500 quilómetros.

Uma fonte militar citada pela ‘Reuters’ afirmou que um dos mísseis disparados pela Rússia percorreu mais de 1.200 quilómetros antes de atingir território ucraniano a 5 de outubro. O ministro Sybiha considerou que o uso desta arma “demonstra o desrespeito de Vladimir Putin pelos EUA e pelos esforços diplomáticos do presidente Trump para pôr fim à guerra”, defendendo que Kiev continua a apoiar as propostas de paz avançadas por Washington.

Pressão sobre a Europa e apelo a mais armamento

O chefe da diplomacia ucraniana sublinhou que o aumento da capacidade de fogo de longo alcance de Kiev seria essencial para persuadir Moscovo a negociar o fim do conflito. A Ucrânia solicitou aos EUA o envio de mísseis Tomahawk, de lançamento marítimo, não abrangidos pelo antigo tratado INF. Moscovo já classificou esse eventual fornecimento como uma “escalada perigosa”.

Analistas militares ocidentais afirmam que o uso do 9M729 amplia o alcance do arsenal russo e reforça o sinal de ameaça à Europa, num momento em que Donald Trump tenta intermediar um novo acordo de paz. “Putin está a aumentar a pressão como parte das negociações”, afirmou William Alberque, investigador do ‘Pacific Forum’, lembrando que o míssil foi concebido para atingir alvos europeus.

Na semana passada, a Rússia testou ainda o míssil de cruzeiro ‘Burevestnik’, movido a energia nuclear, e anunciou o ensaio do torpedo ‘Poseidon’, também nuclear. A Casa Branca recusou comentar a utilização do 9M729, mas Trump ordenou a retoma dos testes de armas nucleares americanas, citando “programas de testes de outros países”.

Fragmentos e provas no terreno

As autoridades ucranianas não detalharam as datas ou locais exatos dos ataques, mas um alto responsável confirmou que as operações começaram a 21 de agosto, poucos dias após a cimeira entre Trump e Putin no Alasca.

Imagens analisadas pela ‘Reuters’ mostram destroços de um ataque russo a 5 de outubro na aldeia de Lapaiivka, onde quatro pessoas morreram. Fragmentos marcados com a designação 9M729 foram identificados entre os escombros. O académico Jeffrey Lewis, do Middlebury College, confirmou que as peças analisadas — motor, tubo e painéis — são consistentes com o míssil.

Implicações estratégicas

Especialistas indicaram que o 9M729 oferece à Rússia novas rotas de ataque e maior capacidade de ocultação, ao ser lançado do solo. “Isso torna as defesas aéreas mais vulneráveis e aumenta o número de mísseis disponíveis”, observou Lewis.

Douglas Barrie, investigador do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, acrescentou que Moscovo poderá estar a testar o sistema em condições reais de combate. “A utilização repetida indica um propósito militar”, afirmou, alertando que o uso de mísseis de alcance intermédio em território europeu “constitui uma séria questão de segurança para toda a região”.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.