Mentalidade Nexialista: a competência invisível dos líderes que gerem na complexidade

Opinião de Luis Rasquilha, CEO do Ecossistema Inova. Board Member/Non Executive Diretor (NED) da Maza Tarraf, Giant e Unifisa. Professor convidado na FDC, Hospital Albert Einstein e ESALQ/USP. Colunista do MIT Sloan Review Brasil e Executive Digest Portugal.

Executive Digest
Janeiro 6, 2026
11:35

Durante muito tempo, a gestão confundiu eficácia com controlo, liderança e especialização. Num mundo relativamente estável, essa equação fazia sentido.

Num mundo marcado por disrupção permanente, múltiplas crises simultâneas e elevada ambiguidade, tornou-se insuficiente — e, em muitos casos, perigosa.

A complexidade deixou de ser uma exceção e passou a ser a regra. Volatilidade geopolítica, aceleração tecnológica, pressão regulatória, transformação do trabalho e expectativas sociais crescentes tornaram insuficientes muitas das abordagens clássicas de gestão.

Hoje, decisões estratégicas raramente têm respostas claras ou unidimensionais. Os líderes não falham por falta de competência técnica ou de acesso à tecnologia. Falham porque continuam a pensar a realidade de forma fragmentada, enquanto o mundo funciona de forma profundamente interligada.

Nunca houve tanta informação, tantos dados, tantos especialistas e tantas ferramentas de apoio à decisão. Ainda assim, vemos:

  • Estratégias coerentes no papel, mas frágeis na execução;
  • Transformações tecnológicas que geram rejeição interna;
  • Organizações eficientes, mas desumanizadas;
  • Crescimento económico acompanhado de erosão de confiança.

O problema não é técnico. É cognitivo. A gestão continua a operar como se decisões estratégicas pudessem ser compreendidas a partir de uma única lógica dominante. Num mundo complexo, isso já não é verdade.

E neste contexto, brilhantemente abordado pelo meu sócio na Inova Marcelo Veras, começa a emergir uma competência crítica, ainda pouco formalizada, mas cada vez mais determinante: a Mentalidade Nexialista. Num contexto executivo, a Mentalidade Nexialista pode ser definida de forma simples:

É a capacidade de integrar múltiplas lentes de análise (ligar diferentes perspetivas) — negócio, tecnologia, pessoas, sociedade, ética — para compreender melhor a realidade, reduzir riscos estratégicos e tomar melhores decisões em ambientes cada dia mais complexos.

Não se trata de acumular conhecimento, mas de conectar dimensões que, na prática, estão interligadas, mas que muitas vezes são geridas de forma isolada dentro das organizações.

Não é saber mais. É compreender melhor as ligações invisíveis que determinam o impacto real das decisões. Um líder nexialista não substitui especialistas. Cria sentido entre especializações, faz algo diferente: integra visões.

Porque é que esta mentalidade se tornou crítica para CEOs e Boards? Grande parte das decisões que chegam hoje à mesa de um CEO ou de um conselho de administração tem três características comuns:

  1. Elevado grau de incerteza;
  2. Impactos transversais à organização;
  3. Consequências reputacionais, humanas e sociais.

A fragmentação da análise — típica de estruturas tayloristas funcionais — aumenta o risco de decisões tecnicamente corretas, mas estrategicamente erradas. A Mentalidade Nexialista funciona como um sistema de alerta estratégico, permitindo:

  • Antecipar efeitos colaterais;
  • Evitar decisões míopes;
  • Aumentar a qualidade do julgamento executivo;
  • Integrar múltiplas visões.

E essa (nova) abordagem (Mentalidade Nexialista) necessita da convergência de múltiplas lentes.

  1. Neurociência – como o cérebro decide sob pressão

Grande parte das decisões estratégicas é tomada em contextos de stress, incerteza e sobrecarga cognitiva. A neurociência ajuda a compreender:

  • Limites reais da racionalidade;
  • Impacto do medo, da urgência e da recompensa;
  • Tendência para decisões defensivas ou de curto prazo.

Líderes nexialistas sabem que decisões críticas não são apenas lógicas — são biológicas.

  1. Psicologia social – o peso do grupo e do contexto

Organizações decidem em grupo, não em abstracto. A psicologia social permite compreender:

  • Conformismo e pensamento de grupo;
  • Dinâmicas de poder e status;
  • Influência da cultura e do contexto social.

Muitas más decisões são socialmente racionais, mas estrategicamente erradas.

  1. Psicologia comportamental – vieses e atalhos mentais

Mesmo líderes experientes estão sujeitos a:

  • Viés de confirmação;
  • Excesso de confiança;
  • Aversão à perda;
  • Ancoragem em experiências passadas.

A Mentalidade Nexialista não elimina vieses — cria mecanismos para os contrariar.

  1. Narrativa e storytelling – como as decisões ganham vida

Decisões não se implementam por PowerPoint, mas por narrativas. Storytelling não é comunicação acessória; é arquitectura estratégica:

  • Dá sentido à mudança;
  • Alinha emoção e razão;
  • Cria adesão e compromisso.

Sem narrativa, até a melhor estratégia morre na execução.

  1. Filosofia – ética, propósito e coerência

Num mundo hiperexposto, decisões neutras são cada vez mais raras. A filosofia ajuda a:

Questionar pressupostos;

Lidar com dilemas éticos complexos;

Alinhar estratégia com valores.

A pergunta deixou de ser apenas “funciona?” e passou a ser “faz sentido?”.

  1. Diplomacia – gerir interesses, tensões e ecossistemas

As organizações operam hoje em ecossistemas densos: reguladores, parceiros, comunidades, stakeholders internos e externos. A lente diplomática permite:

  • Ler interesses divergentes;
  • Negociar sem escalar conflitos;
  • Construir alianças sustentáveis.

Liderar é, cada vez mais, um exercício de diplomacia estratégica.

  1. Ciência de dados – rigor sem ilusão de controlo

Dados são essenciais, mas não são neutros nem completos. A ciência de dados, quando bem usada:

  • Apoia a decisão;
  • Identifica padrões;
  • Reduz arbitrariedade;

Quando mal compreendida, cria uma falsa sensação de certeza num mundo incerto. O líder nexialista usa dados como bússola, não como piloto automático.

Estas sete lentes ganham força quando aplicadas a quatro grandes temas estruturantes da gestão contemporânea.

  1. Economia – para além dos ciclos tradicionais

A economia actual é marcada por:

  • Interdependência global
  • Choques recorrentes
  • Pressões inflacionistas, energéticas e geopolíticas

Decisões económicas são hoje inseparáveis de factores sociais, políticos e humanos.

  1. Pós-Taylorismo – o fim da gestão mecanicista

O modelo de controlo, hierarquia rígida e optimização de tarefas está esgotado. O pós-taylorismo exige:

  • Autonomia com responsabilidade
  • Trabalho baseado em conhecimento
  • Liderança mais interpretativa do que normativa

Gerir pessoas como peças de um sistema já não funciona.

  1. Cenários e tendências – pensar futuros possíveis

Planeamento linear foi substituído por pensamento de cenários:

  • Não prever um futuro
  • Preparar vários
  • Reconhecer sinais fracos

A Mentalidade Nexialista através do TrendsInnovation transforma tendências em capacidade de antecipação estratégica, não em futurologia superficial.

  1. Para além da tecnologia

A tecnologia é condição necessária, mas não suficiente. O impacto real está:

  • No comportamento humano;
  • Nos modelos organizacionais;
  • Na ética do uso;
  • No redesenho do trabalho.

Tecnologia sem pensamento nexialista amplifica erros à escala.

Os líderes que demonstram esta mentalidade têm alguns traços comuns:

  • Curiosidade para além da sua função;
  • Capacidade de síntese e priorização;
  • Conforto com ambiguidade;
  • Humildade intelectual;
  • Capacidade de fazer as perguntas certas, não apenas de dar respostas.

Não são líderes que sabem mais — são líderes que ligam melhor.

Para CEOs e Boards, isto implica:

  • Equipas de liderança mais diversas (não só em perfis, mas em pensamento);
  • Fóruns estratégicos menos funcionais e mais transversais;
  • Decisões avaliadas por múltiplas dimensões, não apenas KPIs financeiros;
  • Formação executiva que integre tecnologia, comportamento humano, filosofia, psicologia e ética.

O líder do século XXI não é o decisor mais rápido nem o mais técnico. É aquele que:

  • Liga perspectivas
  • Reconhece padrões
  • Tolera ambiguidade
  • Decide com consciência sistémica

A Mentalidade Nexialista não é um luxo intelectual. É uma competência de sobrevivência estratégica num mundo onde a complexidade já não permite respostas simples. Liderar a complexidade é ligar pontos. No fim, liderar hoje é menos sobre controlar variáveis — e mais sobre compreender relações invisíveis e agir com responsabilidade sobre elas.

Em suma, num mundo simples, especialização extrema era uma vantagem. Num mundo complexo, pode ser uma fragilidade. A Mentalidade Nexialista não substitui estratégia, tecnologia ou talento. Amplifica-os. É a competência invisível que permite aos líderes navegar a complexidade sem perder clareza, coerência e impacto. Liderar hoje não é escolher entre opções certas ou erradas — é compreender as ligações invisíveis que determinam o sucesso ou o fracasso das decisões.

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