O vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, Dmitry Medvedev, alertou para os riscos de deixar expirar, ainda esta semana, o último tratado de controlo de armas nucleares entre Moscovo e Washington, considerando que tal cenário poderia acelerar o simbólico “Relógio do Apocalipse”. O acordo Novo START, assinado em 2010 quando Medvedev era presidente russo, termina esta quinta-feira, salvo entendimento de última hora entre as duas potências.
Em declarações à agência estatal russa ‘TASS’ e ao blogger de guerra WarGonzo, Medvedev afirmou que o fim do tratado não significaria automaticamente uma guerra nuclear, mas sublinhou que a situação deve “alarmar toda a gente”. Segundo o responsável russo, “os relógios estão a correr” e aproximam-se perigosamente de um ponto crítico, numa referência direta ao indicador simbólico que mede o risco de uma catástrofe global provocada pelo homem.
O presidente americano, Donald Trump, já indicou que pretende deixar o tratado expirar, rejeitando uma proposta de Moscovo para prolongar voluntariamente os limites à implantação de armas nucleares estratégicas. Em entrevista recente ao ‘New York Times’, Trump afirmou que, se o acordo terminar, os Estados Unidos procurarão “um acordo melhor”.
De acordo com a ‘Reuters’, Washington defendeu ainda que a China deveria integrar futuras negociações de controlo de armamento, posição que Pequim rejeitou, apesar de ser a terceira maior potência nuclear em número de ogivas.
Relações tensas e risco de escalada
Aliado próximo de Vladimir Putin, Medvedev tem sido uma das vozes mais duras da elite política russa desde o início da guerra na Ucrânia. As relações entre Moscovo e Washington deterioraram-se profundamente após a invasão russa em 2022, o maior confronto entre a Rússia e o Ocidente desde a Guerra Fria. Ainda assim, os contactos diplomáticos intensificaram-se desde o regresso de Trump à Casa Branca, com enviados americanos a tentarem mediar o fim do conflito.
Questionado sobre o impacto de Trump para a Rússia, Medvedev disse que Moscovo respeita a escolha do eleitorado americano e considerou encorajador o retomar dos contactos bilaterais. Contudo, alertou que o mundo se tornou “um lugar muito perigoso” e que o limiar de contenção global está a diminuir. “Não estamos interessados num conflito global. Não somos loucos”, afirmou, acrescentando, no entanto, que um cenário desse tipo “não pode ser totalmente descartado”.
O responsável russo voltou a criticar duramente os líderes europeus, acusando-os de terem sabotado as próprias economias numa tentativa falhada de derrotar a Rússia no conflito ucraniano. Na entrevista, garantiu ainda que a produção russa de armamento, incluindo artilharia e drones, aumentou de forma significativa desde o início da guerra, afirmando que a indústria de defesa russa “funciona como um relógio”.
Tecnologia, poder e confronto global
Medvedev defendeu igualmente que a Rússia não pode ficar para trás nas tecnologias de ponta, referindo áreas como a inteligência artificial generativa, a biologia sintética e a computação quântica. Segundo o ex-presidente russo, o país está envolvido numa corrida tecnológica global e procura recuperar atrasos provocados pelo colapso da União Soviética.
Na segunda parte da entrevista, citada pela ‘Reuters’, Medvedev insistiu que o Ocidente tem ignorado repetidamente os interesses estratégicos da Rússia, acusando os aliados de Kiev de desvalorizarem deliberadamente os riscos de escalada. Para Moscovo, a chamada “operação militar especial” demonstra que o país está disposto a defender os seus interesses vitais.
A Ucrânia e os seus aliados europeus consideram, por sua vez, que a guerra representa uma tentativa de expansão territorial de inspiração imperial e alertam que uma vitória russa poderia abrir caminho a um confronto direto com a NATO — acusações que o Kremlin rejeita como “absurdas”.














