As cheias provocadas pela depressão Kristin deixaram campos alagados, plantações destruídas e explorações pecuárias severamente afetadas em várias regiões do país, levantando dúvidas entre os consumidores sobre uma eventual escassez de produtos alimentares e uma subida dos preços.
Para já, o setor agrícola procura tranquilizar, enquanto a distribuição prefere cautela, sublinhando que ainda é cedo para antecipar impactos no mercado, segundo a rádio ‘Renascença’.
O secretário-geral da Confederação de Agricultores de Portugal, Luís Mira, afasta o cenário de falta de alimentos ou de aumentos significativos dos preços. “O consumidor não vai notar”, garante, explicando que Portugal não vive numa economia fechada e que, caso faltem produtos nacionais, estes poderão ser substituídos por produtos provenientes de outros mercados. “Vivemos num mercado único europeu”, sublinha, defendendo que não haverá “uma subida extraordinária” dos preços.
Já a Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição adota uma posição mais prudente. O seu secretário-geral, Gonçalo Lobo Xavier, considera “extemporâneo” tirar conclusões nesta fase, afirmando que a prioridade está centrada no abastecimento e na manutenção da logística. “Se isto vai ter efeitos dentro de um ou dois meses no mercado, é muito cedo para o dizer”, afirma, reconhecendo, ainda assim, que situações desta natureza “muitas vezes provocam distorções no mercado”.
Produtores enfrentam incerteza e atrasos na atividade
Se o impacto nos consumidores é, para já, descartado pela CAP, o mesmo não acontece do lado da produção. Luís Mira admite que ainda é cedo para quantificar prejuízos, até porque o mau tempo deverá prolongar-se nas próximas semanas. Quase todos os agricultores enfrentam atualmente excesso de água nos terrenos, o que impede a realização de práticas agrícolas essenciais nesta fase do ano e atrasa o calendário das culturas.
As áreas mais afetadas são as estufas e as explorações pecuárias, com relatos de silos destruídos, telhados arrancados e estruturas colapsadas. Há também olivais completamente arrasados, com árvores arrancadas pela raiz. Nas culturas anuais, o atraso é inevitável, embora a duração desse impacto seja, para já, impossível de prever.
Distribuição reforça stocks e apoia produção local
Do lado da distribuição, as empresas têm procurado adaptar-se às dificuldades provocadas pelas cheias, sobretudo nas zonas mais afetadas, como Leiria, onde houve cortes de energia e de água que levaram, temporariamente, ao encerramento de algumas lojas. No total, 41 espaços de retalho alimentar foram afetados, seis dos quais chegaram a encerrar, embora todos estejam já em funcionamento.
Para garantir o abastecimento da população, os retalhistas reforçaram os stocks de refeições prontas, água e artigos de higiene. Em paralelo, têm sido desenvolvidas iniciativas para apoiar os produtores locais, nomeadamente no escoamento de produtos pecuários, evitando desperdício alimentar e assegurando o cumprimento das regras de segurança alimentar.
Apoios anunciados, execução ainda incerta
Apesar de o Ministério da Agricultura ter anunciado a abertura de uma medida de restabelecimento do potencial produtivo, com apoios que podem chegar a 100% para investimentos entre cinco mil e 400 mil euros, o setor agrícola alerta para os riscos de atrasos na execução. Os formulários para a declaração de prejuízos já estão disponíveis nas CCDR e decorrem avaliações no terreno, mas Luís Mira lembra que “anunciar medidas é fácil; concretizá-las rapidamente é que é complicado”.
O responsável da CAP recorda mesmo que ainda existem agricultores afetados por tempestades anteriores que não receberam os apoios prometidos, alertando que a rapidez na resposta será decisiva para evitar consequências económicas mais graves no setor.




