As descargas programadas na barragem do Alqueva, no Alentejo, transformaram-se num espetáculo impressionante e numa prova da capacidade da maior reserva de água da Europa. Em quatro dias, a albufeira libertou cerca de 500 milhões de metros cúbicos de água, um volume equivalente a três anos de consumo da Área Metropolitana de Lisboa, com três milhões de habitantes.
A barragem do Alqueva, inaugurada em 2002 e guardiã das águas do rio Guadiana, realizou descargas programadas pelo menos quatro dias consecutivos, algo que não acontecia desde 2013. José Pedro Salema, presidente da Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva (EDIA), garantiu à ‘Euronews’ que a operação decorreu com tranquilidade: “A infraestrutura foi dimensionada para cheias bíblicas. Esta é uma pequena cheia que conseguimos regular com elevado grau de confiança.”
Embora já tenha atingido o limite de capacidade em anos anteriores, como em 2025, apenas a barragem de Pedrógão abriu as comportas nesse período para gerir o armazenamento. Agora, o cenário é diferente: quase todas as barragens da região tiveram de aliviar pressão, incluindo Alvito e Odivelas, algo pouco comum nos últimos 14 anos.
O impacto em piscinas olímpicas
Para visualizar a dimensão das descargas, o engenheiro responsável pela gestão da barragem explica: “As quatro turbinas de Alqueva escoam 800 metros cúbicos por segundo, e os descarregadores de meio fundo libertam 600 metros cúbicos por segundo, num total de 1.400 metros cúbicos por segundo. É qualquer coisa como encher uma piscina olímpica em menos de dois segundos.”
Este cálculo ajuda a perceber a escala: em apenas quatro dias, a água libertada teria enchido milhares de piscinas olímpicas, evidenciando a pressão que recai sobre os caudais dos rios e os desafios para as populações ribeirinhas. “O principal é garantir que pessoas e bens que estão a jusante não sejam surpreendidos pela subida das águas. Todas as operações são comunicadas às autoridades competentes, incluindo a Agência Portuguesa do Ambiente e a Autoridade Nacional de Proteção Civil”, sublinha Salema.
Chuvas recorde em dezembro e janeiro
O Alentejo e o Algarve, regiões marcadas por anos de seca, viram os seus reservatórios transbordarem. O mês de dezembro de 2025 foi o sétimo mais chuvoso desde 2000 em Portugal continental, e janeiro segue uma tendência semelhante, segundo José Pimenta Machado, presidente da APA.
Atualmente, as barragens portuguesas monitorizadas estão, em média, com 90% da sua capacidade ocupada. A bacia hidrográfica do Mondego é a mais preocupante, com chuvas contínuas e risco elevado de cheias, especialmente face à tempestade Leonardo. Em apenas três dias, as descargas realizadas no país libertaram um volume de água equivalente ao consumo anual total de Portugal, segundo a APA.














