Marques Mendes recusa explicar 709 mil euros ganhos na Abreu Advogados em dois anos

Luís Marques Mendes, de 68 anos, candidato à Presidência da República com o apoio dos partidos do Governo, recusa esclarecer como ganhou 709 mil euros líquidos nos últimos dois anos enquanto “consultor externo” da Abreu Advogados.

Revista de Imprensa
Dezembro 17, 2025
10:08

Luís Marques Mendes, de 68 anos, candidato à Presidência da República com o apoio dos partidos do Governo, recusa esclarecer como ganhou 709 mil euros líquidos nos últimos dois anos enquanto “consultor externo” da Abreu Advogados. Em causa estão €413.247,58 recebidos em 2023 e €296.309,37 em 2024, valores que o próprio não explica quanto à natureza concreta do trabalho desenvolvido, aos clientes angariados ou aos contactos institucionais realizados, apesar de sucessivas perguntas sobre sectores, países e eventuais diligências junto de membros do Governo.

A revista Sábado confrontou o candidato com insistência sobre a origem exata dos honorários e sobre possíveis conflitos de interesses, sem obter respostas substantivas. Através da assessoria, Marques Mendes limitou-se a dizer que “são questões a que só a Abreu Advogados pode responder, se o entender fazer”, enquanto a sociedade de advogados afirmou genericamente que não comenta vencimentos nem matérias cobertas por segredo profissional, acrescentando apenas que disponibiliza informação “objetiva e transparente” no seu site.

Especialistas ouvidos pela publicação explicam que um consultor externo, sobretudo com forte exposição pública e rede de contactos, é normalmente pago para angariar trabalho e “abrir portas” — desde reuniões com CCDR, autarcas ou governantes até pareceres necessários a projetos de investimento — recebendo, em regra, uma percentagem da faturação. Três advogados de outras firmas consideram que 709 mil euros em dois anos é um patamar mais comum entre sócios seniores das maiores sociedades do país e que, no caso de Marques Mendes, só se justifica pelo desbloqueio de grandes clientes, estatuto que recusou quando lhe foi proposto.

Também permanece sem esclarecimento a lista de clientes da empresa familiar LS2MM, entretanto dissolvida devido à candidatura, apesar de uma promessa pública de divulgação. Ainda assim, documentos consultados pela Sábado identificam um cliente: o grupo de construção civil liderado por Alberto Couto Alves. Marques Mendes confirmou contratos de consultoria não jurídica, primeiro celebrado em 2020 por quatro anos e depois renovado por um ano, ambos no valor de cinco mil euros mensais mais IVA, explicando tratar-se de “análises sobre a situação nacional e internacional, na perspetiva de um investidor”, acrescentando que “não foi o único para quem fiz o mesmo tipo de análises”.

A falta de transparência levanta potenciais conflitos de interesses caso venha a ser eleito Presidente da República, ainda que o cargo não tenha funções executivas. O tema ganha peso à luz da chamada “pegada judicial” do candidato, que nunca foi condenado nem constituído arguido, mas cujo nome surgiu em investigações marcantes: desde o caso da Câmara da Amadora, em 2003, passando por pedidos de diligências a governantes então intercetados em escutas, até à Operação Labirinto/Vistos Gold, onde justificou contactos para acelerar processos “parados há mais de um ano”. Em 2014, foi ainda associado a suspeitas fiscais e empresariais, das quais se demarcou publicamente, afirmando que “nenhum facto me diz respeito pessoalmente”.

Ao longo dos anos, Marques Mendes tem respondido às críticas sublinhando a legalidade da sua atuação e a normalidade de uma vasta rede de contactos. Essa perceção foi resumida pelo sócio-gerente da Abreu Advogados, Miguel Castro Pereira, que já afirmara que o agora candidato “dá confiança aos clientes” — uma característica que ajuda a explicar rendimentos elevados, mas que não dissipa as dúvidas políticas e éticas que a candidatura a Belém voltou a colocar no centro do debate público.

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