Israel e o Hamas chegaram esta quinta-feira a um acordo de paz preliminar mediado pelos Estados Unidos, Egito, Catar e Turquia, que prevê um cessar-fogo imediato e a troca de reféns israelitas por prisioneiros palestinianos. O entendimento foi alcançado após três dias de negociações em Sharm el-Sheikh, no Egito, sob a égide do presidente norte-americano Donald Trump, que procura consolidar o seu plano de paz para o Médio Oriente.
Trata-se do terceiro cessar-fogo desde o início da guerra, há dois anos, após o ataque do Hamas a Israel — que matou 1.200 pessoas e resultou na captura de centenas de reféns — e a devastadora resposta israelita sobre Gaza, que causou 67.000 mortos, em grande parte civis.
O acordo é visto como um passo significativo, ainda que longe de uma solução definitiva para o conflito que opõe israelitas e palestinianos há décadas.
Um plano com objetivos políticos e simbólicos
O momento da assinatura não parece coincidência. O anúncio ocorre no segundo aniversário do ataque de 7 de outubro e a poucos dias da divulgação do Prémio Nobel da Paz, distinção que Trump ambiciona há anos. Analistas interpretam o acordo como uma tentativa do presidente norte-americano de se apresentar como “grande negociador” e pacificador global, enquanto desvia atenções internas do impasse político em Washington, onde o Governo federal enfrenta uma paralisação por falta de aprovação orçamental para 2026.
“Com este acordo, Trump procura consolidar um quadro made in Trump: definir as linhas gerais agora e deixar os detalhes para mais tarde”, observa o texto. As fases seguintes do plano preveem uma “Gaza desradicalizada” e incentivos para o desarmamento, metas que críticos consideram contrárias ao direito internacional e à soberania palestiniana.
A tensão no Golfo e o papel da Casa Branca
O impulso final para o acordo terá sido dado após os ataques israelitas de 9 de setembro em Doha, que atingiram membros do Hamas. Foi a primeira vez que Israel atacou território de uma potência do Golfo, onde os Estados Unidos mantêm a sua maior base militar regional.
A ofensiva irritou profundamente o Catar, tradicional mediador, e desencadeou, segundo o analista Giorgio Cafiero (Atlantic Council), uma “corrida ao armamento e uma diversificação de alianças” no Golfo, incluindo um acordo entre a Arábia Saudita e o Paquistão, com aproximações a Turquia e China.
Para Washington, o acordo representa também uma forma de reconstruir a confiança regional e evitar que os seus parceiros árabes procurem alternativas de defesa fora da sua órbita.
Reações em Israel e no Hamas
O primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu anunciou que convocará o Governo “para ratificar o acordo e trazer para casa todos os nossos reféns”.
De acordo com Aaron David Miller, ex-negociador norte-americano e membro do Carnegie Endowment for International Peace, o Hamas “já percebeu que os reféns deixaram de ser um ativo político” e que a sua libertação aumentará a pressão internacional para encerrar a guerra.
Apesar disso, o plano é difícil de aceitar para o movimento islâmico, que o considera uma imposição sem consulta. Mesmo assim, o Hamas, enfraquecido militarmente e isolado politicamente, vê-se obrigado a ceder perante a catástrofe humanitária em Gaza.
O politólogo israelita Nadav Eyal considera esta primeira fase “uma vitória táctica para Israel”, pois obriga os islamistas a entregar o seu trunfo principal — os reféns — enquanto Telavive mantém o controlo de 53% da Faixa de Gaza até que as retiradas militares previstas sejam completadas.
As dúvidas sobre a execução e as críticas internacionais
Apesar do entusiasmo inicial, o cumprimento do acordo enfrenta obstáculos. O Hamas poderá não localizar todos os restos mortais dos reféns falecidos, devido à destruição massiva causada pelos bombardeamentos israelitas. Calcula-se que dos cerca de 50 reféns restantes, apenas 20 estejam vivos, o que pode travar as trocas previstas.
Algumas vozes críticas alertam para o risco de uma pausa técnica, sem paz sustentável. O académico Shibley Telhami, da Universidade de Maryland, lembra que “proteger crimes de guerra desmerece o Nobel da Paz”. Já Yousef Munayyer, diretor do Programa Israel-Palestina do Arab Center, ironizou nas redes sociais:
“Trump ganha o Nobel na sexta-feira, Israel recupera os reféns no sábado e o genocídio continua no domingo.”
As implicações políticas para Netanyahu e Trump
Netanyahu, sob intensa pressão das famílias dos reféns e dos seus aliados da extrema-direita (Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir), aproveita o acordo para reforçar a sua posição interna e ganhar tempo político. O primeiro-ministro enfrenta um processo por corrupção e críticas pela falha de segurança que permitiu o ataque de 2023.
Com o acordo, Netanyahu partilha custos e méritos com Trump, podendo apresentar-se como um parceiro responsável, enquanto o presidente norte-americano reforça a sua imagem de mediador global.
Segundo o académico israelita Ori Goldberg, o intercâmbio pode estar concluído já neste fim de semana, o que Netanyahu tentará transformar em símbolo de vitória. “Se as sondagens melhorarem, poderá até antecipar eleições”, observa Goldberg.
A mediação árabe e o papel central do Egito, Catar e Turquia
O Egito desempenhou um papel logístico e diplomático crucial. As negociações indiretas em Sharm el-Sheikh contaram com coordenação técnica e supervisão do Cairo, que garante a sequência do cessar-fogo e das trocas de prisioneiros.
O Catar, principal canal político com o Hamas, enviou às conversas o seu primeiro-ministro e ministro dos Negócios Estrangeiros, Mohamed bin Abdulrahman Al Thani, que se reuniu com o enviado especial de Trump, Steve Witkoff. O emirado atua assim como cogarante do acordo, ao lado de Washington.
A Turquia também teve um papel decisivo. O chefe dos serviços secretos, Ibrahim Kalin, aproximou as posições das partes, enquanto o ministro dos Negócios Estrangeiros, Hakan Fidan, antecipou o acordo a partir de Ancara. O presidente Recep Tayyip Erdoğan emerge como um mediador regional de peso, procurando recuperar protagonismo internacional num contexto de crise económica interna.
Paz mais próxima, mas solução ainda distante
O acordo representa o primeiro avanço tangível em dois anos de guerra, mas está longe de resolver as causas profundas do conflito. A criação de dois Estados soberanos, ponto essencial para uma paz duradoura, continua fora da agenda imediata.






