Mais duas semanas de chuva fazem temer novas cheias com solos saturados e barragens no limite

Portugal deverá enfrentar pelo menos mais duas semanas de precipitação frequente e vento, num cenário que mantém elevado o risco de cheias e dificulta a resposta no terreno.

Revista de Imprensa
Janeiro 30, 2026
9:31

Portugal deverá enfrentar pelo menos mais duas semanas de precipitação frequente e vento, num cenário que mantém elevado o risco de cheias e dificulta a resposta no terreno. As previsões apontam para cerca de dez dias quase consecutivos de chuva em praticamente todo o território, “nuns dias mais intensa, noutros mais dispersa”, com apenas uma curta pausa prevista para sábado, que deverá traduzir-se numa aberta temporária sem impacto duradouro na melhoria da situação.

De acordo com informações avançadas pelo Expresso, o meteorologista Nuno Lopes, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), alerta para um “período prolongado de instabilidade” particularmente problemático devido às condições excecionais do território. Com solos saturados, infraestruturas fragilizadas e barragens próximas do limite, o especialista sublinha que “mesmo um aviso amarelo pode ter impactos semelhantes aos de um aviso laranja”, explicando que quantidades de precipitação relativamente modestas podem hoje provocar efeitos comparáveis aos de episódios muito mais intensos no passado. O mesmo se aplica ao vento, já que “rajadas moderadas podem provocar danos que noutras circunstâncias não ocorreriam”.

Os dados climatológicos confirmam a anormalidade do cenário. Até quarta-feira, o acumulado de precipitação mensal encontrava-se “acima dos 200% em parte das estações da rede do IPMA”, ou seja, mais do dobro do valor médio habitual, segundo o climatologista Ricardo Deus. Esta persistência de chuva tem reduzido drasticamente a capacidade do território para absorver mais água, potenciando cheias rápidas e agravando a pressão sobre linhas de água e sistemas de drenagem.

“Nunca vi tanta água e a situação é muito difícil”, afirma o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), José Pimenta Machado, que gere o sistema de controlo de cheias. O responsável conta com a breve melhoria prevista para sábado para “conseguir uma janela de tempo para fazer mais descargas nas barragens no limite e aliviar a pressão para as semanas seguintes”. As bacias do Douro, Tâmega, Vouga, Mondego, Tejo e Sado encontram-se em situação de “risco” ou “alerta”, com particular preocupação nas zonas ribeirinhas da Foz do Douro, Tâmega, Vouga, Mondego e Zêzere, onde pode “ser necessário retirar pessoas ou fazer subir um andar nas casas, como já aconteceu em Amarante”.

Nos últimos dias, registaram-se cheias rápidas em várias localidades, com transbordos observados em cidades como Amarante, Águeda, Silves ou Alcácer do Sal. Embora as barragens ainda consigam encaixar caudais elevados — como os cerca de 1000 m³/s que chegam à Aguieira, no Mondego, ou os quase 3000 m³/s no Tejo —, o ex-presidente do IPMA Miguel Miranda considera este último rio “dos mais perigosos”, devido à grande extensão da bacia e às zonas planas suscetíveis de inundação. Apesar de reconhecer o trabalho das autoridades na previsão, gestão e comunicação, admite que, perante “a natureza excecional da precipitação e a persistência do mau tempo”, há um fator que escapa ao controlo: “neste momento, falta sorte”.

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