O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, pediu apoio direto a Vladimir Putin para reforçar as capacidades militares do país, numa carta enviada este mês ao Kremlin, revelou esta sexta-feira o ‘Washington Post’.
O pedido surge num contexto de crescente pressão dos Estados Unidos, liderados por Donald Trump, que deslocaram navios de guerra para o mar das Caraíbas e intensificaram operações contra alegados traficantes de droga com origem nas costas venezuelanas.
Segundo a publicação americana, a carta de Maduro incluía pedidos de revisão de radares defensivos, reparação de aeronaves de fabrico russo e eventual fornecimento de mísseis. O Governo venezuelano também terá contactado a China e o Irão para solicitar equipamentos e cooperação técnica com o objetivo de “fortalecer as defesas do país”. Em carta paralela enviada a Xi Jinping, Maduro pediu “cooperação militar expandida” e a aceleração da produção de sistemas de deteção chineses.
Apoio russo sob sanções
A Rússia continua a ser o principal aliado militar de Caracas. No último domingo, um avião Ilyushin Il-76 – já sancionado pelos EUA por envolvimento em transporte de armamento e mercenários – aterrou em Caracas após contornar o espaço aéreo ocidental, indicou o portal ‘Flightradar24’. No dia anterior, Moscovo ratificara um novo tratado estratégico com a Venezuela.
De acordo com o ‘Washington Post’, a carta entregue por emissários venezuelanos pedia também assistência para restaurar caças Sukhoi Su-30 MK2 e rever motores e radares em território russo, bem como financiamento de médio prazo através da estatal Rostec. Maduro considerou os caças russos “o principal elemento dissuasor” perante uma eventual ofensiva americana.
O ministro dos Transportes venezuelano, Ramón Velásquez, teria coordenado igualmente um carregamento de drones e equipamento de defesa provenientes do Irão, incluindo “scramblers” de GPS e sistemas de deteção passiva. Não é claro como Pequim e Teerão responderam aos pedidos.
Moscovo entre alianças e limites
Apesar da retórica de apoio, analistas citados pelo jornal americano consideram que o envolvimento russo na Venezuela é hoje mais simbólico do que operacional. A guerra na Ucrânia e as sanções ocidentais terão reduzido a capacidade de Moscovo para projetar poder na América Latina. Parte dos postos de escuta russos terá mesmo sido transferida da Venezuela para a Nicarágua, onde o regime de Daniel Ortega mantém laços estreitos com o Kremlin.
Especialistas recordam, contudo, que os laços políticos e económicos entre Caracas e Moscovo remontam a Hugo Chávez, incluindo contratos bilionários no setor petrolífero, aquisição de armamento e acordos energéticos ainda ativos. A Rússia continua a deter participações em três parcerias petrolíferas que produzem cerca de 11% do total venezuelano e mantém direitos de exploração de gás e petróleo avaliados em até cinco mil milhões de dólares.
Mesmo assim, observadores citados pelo ‘Washington Post’ admitem que Moscovo “não está a investir mais na Venezuela” e que o apoio atual se limita à manutenção de interesses estratégicos e económicos já estabelecidos.
Pressão americana e riscos regionais
O envio do porta-aviões ‘USS Gerald Ford’ para a região e mais de uma dezena de ataques americanos desde setembro acentuaram o clima de tensão no Caribe. O Governo venezuelano acusa Washington de violar a sua soberania e nega qualquer envolvimento com o narcotráfico.
Enquanto o Kremlin reafirma “respeito pela soberania venezuelana”, Maduro procura consolidar as defesas do regime com ajuda russa e chinesa, numa aliança que poderá redefinir o equilíbrio de forças no hemisfério ocidental.














