A divulgação de mais de três milhões de documentos adicionais relacionados com Jeffrey Epstein, o financeiro norte-americano condenado por crimes sexuais, está a provocar demissões, acusações públicas e uma onda de críticas nas redes sociais dirigidas a figuras de topo da política europeia. Os registos, tornados públicos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, revelam uma vasta rede de contactos com dirigentes, ex-governantes e personalidades influentes do continente.
Apesar do impacto político e mediático, as autoridades norte-americanas sublinham que os ficheiros foram considerados potencialmente relevantes para a investigação a Epstein e à sua colaboradora Ghislaine Maxwell, mas insuficientes para sustentar processos criminais contra as pessoas mencionadas.
Ainda assim, a documentação mostra que vários membros da elite europeia mantiveram contactos ou correspondência com Epstein mesmo depois de este se ter declarado culpado, em 2008, por crimes relacionados com prostituição de menores. Noutros casos, as referências são apenas circunstanciais.
Emmanuel Macron surge em centenas de menções, mas sem provas de contacto direto
O nome do presidente francês, Emmanuel Macron, aparece em pelo menos 211 documentos. Contudo, a maioria dessas menções corresponde a recortes de imprensa ou discussões genéricas sobre política francesa, sem ligação direta ao chefe de Estado ou ao seu círculo próximo.
Publicações nas redes sociais e um vídeo no YouTube alegaram que Macron teria pedido aconselhamento empresarial a Epstein quando era ministro da Economia e Finanças, chegando mesmo a insinuar envolvimento no tráfico de menores. No entanto, os ficheiros não apresentam provas de correspondência direta entre ambos.
Alguns documentos referem contactos indiretos. Num deles, de 2016, o empresário emiradense Sultan Bin Sulayem escreve a Epstein que tinha almoçado no Palácio do Eliseu e tido uma conversa agradável com Macron “regarding our business in France”.
Trocas de mensagens entre o multimilionário norte-americano Tom Pritzker e Epstein também mencionam um encontro com Macron e tentativas de aproximação, mas sem evidência de reuniões ou comunicações diretas.
Num registo de 2018, um remetente com identidade ocultada escreve “From Macron”, pedindo reflexão sobre ideias políticas e acrescentando “Need something”. Noutro email com o assunto “Re: Macron”, um interlocutor afirma que alguém procura “disruptive and thoughtful ideas for him” e acrescenta: “He wants to lead Europe. Maybe the world.” Epstein responde apenas “ok”.
Um elemento adicional sugere ausência de contacto direto: a 2 de outubro de 2018, o próprio Epstein pede a Caroline Lang, filha do ex-ministro francês Jack Lang, um contacto “with someone in the Macron admin”. Caroline responde: “I will ask my father and return to you”.
Jack Lang e a filha mantiveram correspondência regular
Jack Lang, antigo ministro da Cultura e da Educação de França, e a sua filha Caroline, produtora de cinema, surgem como tendo trocado emails diretamente com Epstein.
Os registos incluem mensagens enviadas pela secretária pessoal de Lang, cópias de passaportes da família e detalhes de várias viagens. Não há qualquer ligação explícita aos crimes sexuais de Epstein, mas surgem referências a projetos empresariais, incluindo um “great project”, e pedidos de favores logísticos, como utilização de carros e aviões.
Lang declarou ter conhecido Epstein através do realizador Woody Allen e afirmou ter ficado chocado quando soube dos crimes: “I was completely shocked when I discovered the crimes he had committed”. Acrescentou: “I fully accept the ties I may have formed at a time when nothing suggested that Jeffrey Epstein could be at the heart of a criminal network”.
A correspondência estende-se até 2017. Após a divulgação dos documentos, Caroline Lang demitiu-se da presidência da União da Produção Independente de França, afirmando: “I do not want this situation to in any way harm the union”.
Børge Brende planeou visita à casa de Epstein em Nova Iorque
Os ficheiros confirmam que Børge Brende, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros da Noruega e atual presidente executivo do Fórum Económico Mundial, planeava visitar a casa de Epstein em Manhattan em junho de 2019.
Várias vítimas de Epstein afirmaram ter sido abusadas nessa residência. Numa mensagem, Brende escreve: “I’m looking forward. Sushi would be amazing.”
Existem também registos de encontros e comunicações anteriores. A 4 de outubro de 2018, Brende agradece por mensagem: “thx btw for a great dinner”, ao que Epstein responde com previsões sobre o futuro da inteligência artificial.
Não há provas de conversas sobre mulheres ou envolvimento direto nos crimes. Brende afirmou que, se soubesse do passado de Epstein, “never have met him”, reconhecendo: “I should have looked into Epstein’s past more closely, and I regret that I didn’t”.
Thorbjørn Jagland participou em encontros e mensagens controversas
Também a Noruega surge com o nome de Thorbjørn Jagland, antigo primeiro-ministro e ex-secretário-geral do Conselho da Europa. Há provas de encontros e comunicações diretas com Epstein.
Num documento, Epstein afirma ao empresário Peter Thiel que Jagland estaria na sua ilha privada “for the entire next week”, local onde várias vítimas alegam ter sido traficadas. Noutra mensagem, diz ao académico Noam Chomsky que Jagland estaria com ele, acrescentando: “He awards the Nobel peace prize”.
Registos mostram ainda trocas de mensagens práticas e uma frase em que Jagland escreve: “I have been in Tirana (Albania) extraordinary girls.”
Inicialmente, Jagland tinha negado contactos com Epstein, mas mais tarde reconheceu “poor judgment” e admitiu que “I never would have had this contact if I knew what we know now”.
Marine Le Pen referida apenas em contexto político
Publicações nas redes sociais alegaram que Marine Le Pen, líder da extrema-direita francesa, surgiria nos ficheiros como “Russian asset”. Contudo, as 68 menções ao apelido “Le Pen” correspondem sobretudo a recortes de imprensa e conversas políticas.
Há trocas de mensagens entre Epstein e Caroline Lang, bem como comunicações de Steve Bannon, que relatava encontros com partidos europeus. Num email enviado pelo jornalista Michael Wolff, lê-se que Bannon se reuniu com dirigentes da direita francesa para discutir o refinanciamento do partido, alegadamente com dinheiro russo. Trata-se, porém, de opinião de terceiros, sem prova documental.
Não existem evidências de contacto direto entre Le Pen e Epstein.
Miroslav Lajčák trocou mensagens sobre mulheres
O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros da Eslováquia, Miroslav Lajčák, surge em vários documentos com comunicações diretas com Epstein e planos de encontros.
Algumas mensagens incluem referências explícitas a mulheres. Em 2018, escreve: “Regards from Kiev! Just to confirm that girls here are as gorgeous as ever:)”. Noutra troca, afirma: “I would take the ‘MI’ girl”, ao que Epstein responde: “You can have them both, I am not possessive. And their sisters.” Também escreve: “Moscow has oil and girls”.
Lajčák negou qualquer ilegalidade, afirmando que nunca lhe foram oferecidos serviços sexuais e que desconhecia a dimensão das atividades criminosas de Epstein. Classificou as mensagens como “nothing more than foolish male egos in action — self-satisfied male banter”. Entretanto, demitiu-se do cargo de conselheiro de segurança nacional da Eslováquia.













