Líder do Hamas afirma que o grupo não pode garantir desarmamento e exige garantias de futuro para a Palestina

O movimento islamista Hamas pretende manter o controlo da segurança em Gaza durante o período transitório após o cessar-fogo, e não se compromete a entregar as armas, afirmou o dirigente Mohammed Nazzal em entrevista à Reuters, em Doha, no Qatar.

Pedro Gonçalves
Outubro 17, 2025
17:52

O movimento islamista Hamas pretende manter o controlo da segurança em Gaza durante o período transitório após o cessar-fogo, e não se compromete a entregar as armas, afirmou o dirigente Mohammed Nazzal em entrevista exclusiva à Reuters, em Doha, no Qatar.

Nazzal, membro do bureau político do Hamas, declarou que o grupo “não pode responder com um sim ou não” à questão do desarmamento, sublinhando que “depende da natureza do projeto” e questionando: “A quem serão entregues as armas?”. As declarações revelam as dificuldades que persistem nas negociações para consolidar o fim da guerra em Gaza e alinhar com o plano proposto pelo presidente norte-americano, Donald Trump, para a região.

Durante a entrevista, o dirigente indicou que o Hamas está disposto a aceitar uma trégua de três a cinco anos, com o objetivo de reconstruir o território devastado. “O objetivo não é preparar uma guerra futura”, afirmou Nazzal, acrescentando que garantias posteriores dependeriam de os palestinianos receberem “horizontes e esperança” para alcançar a criação de um Estado independente.

O líder do Hamas frisou ainda que, nesta fase transitória, “civilmente, haverá uma administração tecnocrática, mas no terreno o Hamas estará presente”. Nazzal disse que a presença do grupo é necessária “para proteger os camiões de ajuda humanitária contra ladrões e grupos armados”.

Israel exige desarmamento imediato e cumprimento do plano de Trump
Em resposta às declarações de Nazzal, o gabinete do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu reafirmou à Reuters que Israel mantém o compromisso com o cessar-fogo, mas exige que o Hamas cumpra os termos do acordo. “O Hamas deve libertar todos os reféns na fase 1. Ainda não o fez. O Hamas sabe onde estão os corpos dos nossos reféns. O Hamas deve ser desarmado segundo este acordo. Sem condições. Eles estão a ficar sem tempo”, declarou a nota oficial.

O plano apresentado por Trump a 29 de setembro previa que o Hamas libertasse de imediato todos os reféns antes de se comprometer com o desarmamento e entregasse a governação de Gaza a um comité tecnocrático supervisionado por uma entidade internacional transitória. Netanyahu apoiou a proposta, afirmando que permitiria “desmantelar as capacidades militares do Hamas, pôr fim ao seu domínio político e garantir que Gaza nunca mais representará uma ameaça a Israel”.

Segundo as autoridades israelitas, os ataques de 7 de outubro de 2023 — que desencadearam o atual conflito — provocaram 1.200 mortos e 251 raptos em território israelita. Em resposta, a ofensiva militar israelita causou a morte de quase 68 mil pessoas em Gaza, segundo números divulgados pelas autoridades locais palestinianas.

Hamas defende medidas “excecionais” e justifica execuções públicas

Durante a entrevista, Mohammed Nazzal também defendeu a recente repressão interna do Hamas em Gaza, onde ocorreram execuções públicas no início da semana. O dirigente argumentou que, em tempos de guerra, “há sempre medidas excecionais” e justificou que os executados “eram criminosos culpados de homicídio”.

Estas afirmações surgem num momento de forte pressão internacional sobre o grupo islamista, que tem sido instado a desarmar e a ceder o controlo administrativo e militar de Gaza para garantir uma paz duradoura.

Trump reitera exigência: “Hamas deve cumprir o compromisso”
Questionado pela Reuters sobre as declarações de Nazzal, a Casa Branca remeteu a resposta para comentários do presidente Trump, feitos na quinta-feira. “Temos um compromisso deles e assumo que o vão cumprir”, afirmou o presidente, reconhecendo que o Hamas devolveu recentemente mais corpos de reféns, sem, no entanto, clarificar a questão do desarmamento ou da sua presença no terreno.

Nazzal, por seu lado, garantiu que o Hamas não pretende manter os corpos dos reféns mortos durante os ataques de 7 de outubro. O grupo já entregou nove dos 28 corpos, mas enfrenta “problemas técnicos” para recuperar os restantes. O dirigente adiantou que países como Turquia e os Estados Unidos poderão participar nas buscas, num esforço conjunto com Israel, Catar e Egito.

Mohammed Nazzal afirmou ainda que, após o período de transição, deverão ser realizadas eleições palestinianas. O dirigente rejeitou, contudo, que tenha sido discutida com o Hamas a presença de uma força internacional de estabilização, uma das hipóteses previstas no plano de cessar-fogo de Trump.

O representante do Hamas insistiu que as discussões futuras, incluindo o tema das armas, “não dizem apenas respeito ao Hamas, mas também a outros grupos armados palestinianos”, defendendo que qualquer decisão “terá de resultar de uma posição conjunta de todos os palestinianos”.

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