Líder da Fiat propõe limitar a velocidade máxima dos carros a 118 km/h. O que está em causa?

A ideia, avançada numa entrevista recente, surge num contexto de forte aumento dos preços dos automóveis novos, num mercado que perdeu cerca de um quarto do seu volume nos últimos anos

Automonitor
Janeiro 23, 2026
11:48

O presidente da Fiat, Olivier François, defendeu a limitação da velocidade máxima dos carros urbanos como forma de travar a escalada de preços dos modelos mais vendidos na Europa. A proposta passa por reduzir deliberadamente a velocidade de veículos compactos para diminuir a complexidade tecnológica exigida pelas normas de segurança europeias e, assim, torná-los mais acessíveis à classe média e aos jovens condutores.

A ideia, avançada numa entrevista recente, surge num contexto de forte aumento dos preços dos automóveis novos, num mercado que perdeu cerca de um quarto do seu volume nos últimos anos. De acordo com o ‘L’Automobile Magazine’, François considera que a indústria entrou num ciclo vicioso após a pandemia, marcado por custos crescentes, inflação e uma acumulação de exigências regulamentares que encarecem de forma significativa os modelos de entrada de gama.

Carros capazes de 200 km/h para uso urbano

O responsável da Fiat questiona a lógica de produzir em massa veículos capazes de ultrapassar facilmente os 200 km/h, quando a maioria dos carros urbanos circula sobretudo em ambientes citadinos e suburbanos. Na sua perspetiva, ao serem concebidos para altas velocidades, estes automóveis têm de integrar sistemas de segurança e assistência ao condutor dimensionados para cenários extremos, o que se reflete diretamente no preço final.

Segundo o ‘L’Automobile Magazine’, a proposta passa por limitar a velocidade máxima de futuros modelos urbanos, como o Fiat 500 ou o Panda, a cerca de 118 km/h. Embora marcas como a Volvo já imponham limites de 180 km/h em vários modelos, nunca se tornou comum aplicar restrições tão baixas em veículos populares, o que levanta dúvidas sobre a aceitação da medida no mercado europeu.

Regulamentação europeia e custos crescentes

Olivier François aponta como principal causa do aumento de preços a multiplicação de regulamentos europeus, em particular a introdução da GSR2, o Regulamento Geral de Segurança. Este quadro obriga à instalação de sistemas avançados de assistência ao condutor, como travagem automática de emergência, reconhecimento de sinais de trânsito ou adaptação inteligente da velocidade.

Na leitura do executivo, estas tecnologias fazem sentido em veículos preparados para circular a velocidades elevadas em autoestradas, mas não refletem o uso real dos carros urbanos. Ao limitar tecnicamente a velocidade máxima, a Fiat acredita ser possível dispensar sensores, câmaras e unidades de processamento dispendiosas, que teriam utilidade reduzida num automóvel pensado para deslocações quotidianas em cidade.

Entre a intenção industrial e a realidade legal

A concretização desta estratégia enfrenta, no entanto, obstáculos significativos. As atuais regras de homologação europeias exigem determinados equipamentos de segurança independentemente da velocidade máxima do veículo. Para que a proposta se traduza em ganhos reais de escala e numa redução efetiva de preços, seria necessária uma alteração do enquadramento legislativo.

O presidente da Fiat defende, por isso, uma diferenciação mais clara entre segmentos, com regras específicas para carros urbanos que tenham em conta as suas características e utilização típica. Sem essa mudança, a ideia arrisca-se a permanecer mais como um alerta político e industrial do que como uma solução imediata para devolver o automóvel novo a uma parte crescente da população europeia.

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