Kiev vai abrir 10 centros de exportação de armas na Europa até 2026: drones ucranianos passam a ser produzidos na UE

Anúncio foi feito pelo presidente Volodymyr Zelensky durante um encontro com estudantes em Kiev

Francisco Laranjeira
Fevereiro 9, 2026
15:25

A Ucrânia planeia abrir 10 centros de exportação de armamento em países europeus até ao final de 2026 e iniciar ainda este mês a produção de drones de tecnologia ucraniana na Alemanha. O anúncio foi feito pelo presidente Volodymyr Zelensky durante um encontro com estudantes em Kiev, num sinal claro da aposta na internacionalização da sua indústria de defesa em pleno contexto de guerra, segundo o ‘Kyiv Post’.

A intervenção decorreu no Instituto de Aviação de Kiev, no âmbito das comemorações do 120º aniversário do nascimento do engenheiro aeronáutico Oleh Antonov. Perante a plateia, Zelensky detalhou os planos para desbloquear as exportações militares ucranianas, um passo há muito aguardado e que poderá transformar o setor da Defesa numa nova fonte de receitas externas para a economia do país.

De acordo com estimativas divulgadas em julho de 2025 pelo Instituto da Escola de Economia de Kiev, a produção militar ucraniana já atingiu um peso comparável ao da agricultura, setor que representa cerca de 7% do PIB. Em 2024, a indústria de Defesa terá gerado cerca de 10 mil milhões de dólares, com projeções de crescimento para 15 mil milhões em 2025. Apesar disso, permanece por utilizar uma capacidade produtiva avaliada entre 30 e 35 mil milhões de dólares, limitada sobretudo pela procura interna insuficiente.

Com novos projetos de investimento, os analistas estimam que a capacidade total do setor possa expandir-se até cerca de 50 mil milhões de dólares em 2028. É neste contexto que o Governo ucraniano pretende avançar com a criação de centros de exportação na Europa. Zelensky indicou que os 10 escritórios de representação estarão localizados nos países bálticos e no norte da Europa e deverão estar plenamente operacionais em 2026, sem adiantar mais pormenores sobre os modelos de funcionamento.

Em paralelo, o presidente anunciou o arranque da produção de drones ucranianos em território alemão a partir de meados de fevereiro. Segundo explicou, linhas de produção semelhantes já se encontram em funcionamento no Reino Unido, recorrendo a tecnologia desenvolvida na Ucrânia. O chefe de Estado sublinhou que o setor da aviação, em particular os sistemas não tripulados, tem despertado um forte interesse junto de investidores estrangeiros.

Atualmente, cerca de 450 empresas produzem drones na Ucrânia, das quais entre 40 e 50 são consideradas líderes do setor. Zelensky afirmou que o interesse do investimento privado é elevado, embora não tenha fornecido dados financeiros detalhados. Na sua perspetiva, 2026 deverá marcar “o ano do investimento” nas tecnologias ucranianas, com os drones a assumirem um papel central naquela que descreveu como a maior indústria existente no país em termos de fluxos financeiros desde o início da guerra.

No mesmo discurso, Zelensky associou diretamente a expansão da produção de drones à segurança europeia. Para o presidente ucraniano, a defesa do continente assenta cada vez mais em tecnologia e sistemas não tripulados, área em que a Ucrânia se posiciona como um polo de conhecimento e inovação. Vários projetos multinacionais em curso deverão, segundo indicou, ter como base especialistas e tecnologia ucranianos.

Apesar do crescimento acelerado, a indústria de Defesa ucraniana continua limitada por restrições às exportações militares. Embora a legislação não proíba formalmente a venda de armamento ao exterior, os mecanismos de licenciamento e autorização permanecem altamente restritivos, criando dependência quase exclusiva das encomendas do Estado. Quatro anos após o início da invasão russa em larga escala, o Governo ainda não concluiu uma política abrangente para o setor, obrigando os fabricantes a operar num contexto de forte pressão orçamental.

Com a maior parte da receita interna canalizada para a defesa e persistentes défices de financiamento, o capital privado tornou-se crucial para a sustentabilidade da indústria. Segundo o ‘Kyiv Post’, analistas alertam que, sem acesso efetivo aos mercados de exportação, existe o risco de os inovadores ucranianos se deslocarem para países com menos restrições, enfraquecendo a capacidade de Kiev de consolidar uma indústria de defesa nacional robusta, num momento em que a procura internacional por tecnologias testadas em combate continua a crescer.

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