Kiev atravessa o inverno sob forte pressão energética. A capital ucraniana enfrenta fornecimento instável de eletricidade e riscos elevados para o aquecimento, com algumas áreas residenciais sem garantia de calor ou luz. Instalações essenciais, como hospitais e escolas, funcionam graças a geradores e soluções móveis, enquanto a população enfrenta condições precárias.
Segundo Oleksandr Serhiienko, diretor do Centro Analítico e de Pesquisa “Instituto da Cidade”, a situação não se limita ao conforto, mas coloca em causa a viabilidade básica da cidade. “As principais fontes de calor não estão a operar em plena capacidade e os períodos de interrupção da energia estão a aumentar. Metade de Kiev recebe aquecimento, a outra metade encontra-se em zona de risco”, alerta.
O agravamento da situação deve-se, em grande parte, aos ataques russos com mísseis e drones, que visam o sistema energético da capital e já deixaram milhares de edifícios altos sem aquecimento. A 24 de janeiro, apenas após um ataque, quase 6.000 prédios ficaram sem aquecimento, afetando especialmente microdistritos como Troieshchyna e Pozniaky.
A interrupção da eletricidade compromete o abastecimento de água, pois os prédios altos dependem de bombas elétricas que deixam de funcionar quando há cortes. Além disso, temperaturas baixas e redes internas de aquecimento debilitadas provocaram ruturas em canos e inundações em vários apartamentos.
Infraestrutura crítica funciona com geradores
Para mitigar os danos, Kiev conta com mais de 1.100 geradores de diferentes capacidades, garantindo funcionamento de hospitais, escolas e instalações estratégicas. A cidade possui ainda cerca de 180 centrais de caldeiras, 12 delas de nível distrital com capacidade superior a 80 MW, além de soluções móveis de aquecimento. Em dez dias, a cidade conseguiu conectar 13 centrais móveis a hospitais prioritários, garantindo operação mínima durante os ataques.
No entanto, Oleksandr Serhiienko alerta que estes recursos são insuficientes para o funcionamento pleno do metro e da rede de transporte elétrico, uma vez que os geradores não suportam toda a carga.
Preparação insuficiente e vulnerabilidade do sistema
A dependência de transformadores e a proteção inadequada de infraestrutura crítica agravam os riscos. A cidade conta com mais de 3.500 transformadores, mas muitos não estão devidamente protegidos, segundo o especialista. “O Governo central e o Ministério da Energia não forneceram proteção adequada. Se os transformadores falharem, mesmo as centrais em funcionamento não fornecem energia”, explica Serhiienko.
A falta de incentivo para a instalação de geração distribuída privada também mantém Kiev vulnerável. Embora existam mecanismos para conectar geradores privados à rede, os custos elevados e a burocracia tornam o processo pouco viável, limitando a capacidade de mitigação durante apagões.
Apesar dos desafios, a cidade recebe apoio externo. A Polónia enviou 130 geradores com capacidade total de 2.376 kW e angariou cerca de 2 milhões de euros para equipamentos adicionais. Bélgica, República Checa e Dinamarca doaram caldeiras móveis, geradores e sistemas UPS para hospitais e outras instalações. Estas medidas asseguram a operação mínima de serviços essenciais, mas não garantem a continuidade para os moradores residenciais.
Consequências para os cidadãos
Para os habitantes de Kiev, a crise energética significa viver com interrupções frequentes de eletricidade, aquecimento instável e dificuldades no abastecimento de água. A prontidão individual dos edifícios, incluindo a existência de geradores próprios e manutenção das redes internas, tornou-se crucial para a sobrevivência durante o inverno. Sem reformas estruturais, a cidade continuará a depender de soluções de emergência e a lidar com riscos elevados.
Oleksandr Serhiienko conclui que, sem medidas sistémicas — proteção da infraestrutura e regulação da geração distribuída —, Kiev permanecerá num estado de improvisação constante, onde os cidadãos tentam compensar as falhas do sistema em vez de viver com segurança garantida.














