Juíza francesa revela a interferência de Trump no julgamento de Marine Le Pen por peculato

De acordo com o jornal espanhol ‘ABC’, o clima de desconfiança intensificou-se após notícias de que a Casa Branca terá ponderado sancionar o juiz responsável pela sentença inicial contra Le Pen

Francisco Laranjeira
Janeiro 21, 2026
12:49

Marine Le Pen depôs esta terça-feira no âmbito do recurso contra a sua condenação por uso indevido de fundos do Parlamento Europeu, num ambiente político particularmente tenso e marcado por suspeitas de interferência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O julgamento é determinante para o futuro político da líder da extrema-direita francesa, atualmente impedida de exercer cargos públicos.

De acordo com o jornal espanhol ‘ABC’, o clima de desconfiança intensificou-se após notícias de que a Casa Branca terá ponderado sancionar o juiz responsável pela sentença inicial contra Le Pen, informação avançada pelo semanário alemão ‘Der Spiegel’ e posteriormente negada pelo Departamento de Justiça americano.

Alerta diplomático após contactos com emissários de Trump

As suspeitas ganharam novo peso no último fim de semana, quando a juíza francesa Magali Lafourcade revelou, em declarações ao canal público ‘France 5’, ter alertado o Ministério dos Negócios Estrangeiros francês após uma reunião, em maio, com representantes das autoridades americanas. Segundo a magistrada, o encontro, inicialmente centrado em direitos humanos, desviou-se rapidamente para a situação jurídica de Marine Le Pen.

A juíza afirmou que os seus interlocutores procuravam elementos que sustentassem a tese de um julgamento politicamente motivado para impedir a candidatura da líder da Reunião Nacional. Face a essas abordagens, decidiu comunicar a situação às autoridades diplomáticas francesas, segundo relata o ‘ABC’.

Le Pen rejeita acusações e aponta responsabilidades externas

Sob a sombra destas suspeitas, Marine Le Pen optou por afastar responsabilidades durante o seu principal interrogatório no Tribunal de Apelação de Paris. A dirigente da extrema-direita apontou o dedo ao Parlamento Europeu, a antigos dirigentes da Frente Nacional — partido rebatizado como Reunião Nacional em 2018 — e até ao seu pai, Jean-Marie Le Pen, falecido em janeiro do ano passado.

Condenada em 2024 por apropriação indevida de mais de três milhões de euros de fundos europeus, Le Pen foi sentenciada a quatro anos de prisão, dois dos quais com pena suspensa, e proibida de exercer cargos públicos até 2030. Esta decisão impede-a, para já, de concorrer às eleições presidenciais do próximo ano, cenário que poderá beneficiar o seu ‘vice’, Jordan Bardella.

Interrogatório prolongado e mudança de estratégia

A líder da Reunião Nacional apostou as suas hipóteses de reversão ou atenuação da sentença numa audiência que se prolongou por quase cinco horas, perante a juíza Michèle Agi, numa das principais salas do Palácio da Justiça de Paris. Logo no início do interrogatório, afirmou não compreender de que crime era acusada, sublinhando a ausência de intenção criminosa.

Tal como na primeira audiência, em janeiro, Le Pen adotou um perfil discreto e uma postura aparentemente conciliadora. Confrontada com provas que apontam para um modus operandi entre 2004 e 2016, que consistia na utilização de assistentes parlamentares europeus como funcionários do partido em França, reconheceu a existência de uma organização centralizada, mas rejeitou a noção de um sistema fraudulento.

Parlamento Europeu e herança política em foco

Marine Le Pen defendeu que, durante anos, o Parlamento Europeu nunca questionou a utilização de assistentes por vários eurodeputados em simultâneo. Teve, ainda assim, de responder a casos concretos, como o de Julien Odoul, que desempenhava funções partidárias em Paris enquanto era formalmente assistente de um eurodeputado.

A líder da extrema-direita atribuiu igualmente responsabilidades ao seu pai, fundador da Frente Nacional, reconhecendo que o modelo foi concebido por Jean-Marie Le Pen em 2004 e mantido após a sua chegada à liderança do partido, em 2011. Procurou ainda descredibilizar testemunhos de antigos militantes afastados, classificando-os como motivados por ressentimento pessoal.

Veredicto esperado para a primavera

O tribunal deverá proferir o veredicto final na primavera, decisão que determinará o grau de responsabilidade de Marine Le Pen neste segundo julgamento. O interrogatório confirmou uma mudança de tom em relação ao primeiro processo, quando a dirigente atacou duramente o sistema judicial e os magistrados, estratégia que acabou por se revelar contraproducente face à condenação decretada em março do ano passado.

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