José Reis, CEO da DHL Express Portugal: «Portugal está cada vez mais conectado com o mundo»

Num mundo em constante transformação, em que as fronteiras comerciais, tecnológicas e logísticas são cada vez mais fluídas, a capacidade de conectar empresas e pessoas assume um papel estratégico.

André Manuel Mendes
Janeiro 2, 2026
13:15

E foi para conhecer essa “conexão” que a Executive Digest se fez à estrada, ou à pista, com encontro marcado no Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no terminal da DHL no Porto, com José Reis, CEO da DHL Express Portugal.

Desde 2018 que José Reis conduz a organização com foco estratégico e operacional, consolidando a sua liderança e reforçando a importância do capital humano como motor de crescimento. Sob a sua direcção, a DHL tem registado um crescimento consistente, investido em tecnologia e infra-estruturas e aprofundado a relação com clientes, oferecendo soluções que vão além do transporte: consultoria, eventos especializados e apoio à internacionalização.

Nesta entrevista, o executivo aborda os desafios de liderar uma multinacional num mercado em evolução, a relevância de Portugal no universo DHL, o impacto da digitalização e do e-commerce no sector logístico, bem como o papel da empresa na criação de emprego e no fortalecimento da economia local.

Mais do que números e estatísticas, esta é uma reflexão sobre liderança, inovação e visão estratégica, numa perspectiva de quem acredita que Portugal está cada vez mais preparado para se afirmar no mapa global de negócios.

Quando assumiu o cargo de CEO, quais foram os principais desafios que encontrou?

O principal desafio, enquanto líder, é conseguir consolidar a minha própria liderança. Ou seja, o mais importante é conseguir chegar às pessoas. As pessoas são o activo mais importante das organizações, é fundamental que eu consiga ter ascendente, influência, mobilizar e conduzir. Isso foi provavelmente o maior desafio. Fui nomeado CEO da DHL Express Portugal, e, embora tivesse tido outras funções dentro da organização e fosse reconhecido como um bom profissional, nunca tinha estado na função que, entretanto, fui nomeado.

Era uma função completamente diferente, de maior responsabilidade, onde precisava demonstrar que era a pessoa indicada para liderar os destinos da DHL em Portugal. Desde 2018 até hoje, conseguimos ter um crescimento muito expressivo, reter e atrair novo talento. Por isso, o balanço que faço até agora é bastante positivo.

Julgo que consegui essa afirmação dentro da organização, que as pessoas me reconhecessem enquanto líder, e, depois de construído isso, tudo o resto acabou por surgir quase de forma natural.

«PORTUGAL NÃO É APENAS UMA ESTAÇÃO; É UM PAÍS MUITO IMPORTANTE»

Qual é a importância do mercado portu­guês para o universo DHL?

A organização trabalha em rede e todos os países são importantes. Portugal não é apenas uma estação; é um país muito importante. A economia portuguesa continua a ser pequena, mas, nos últi­mos anos, fizemos enormes progressos. Hoje, somos um país mais conectado com o mundo.

O empreendedorismo e os exporta­dores portugueses têm dado provas de enorme resiliência, mesmo em contextos macroeconómicos difíceis, como aquele que estamos a viver actualmente. Con­trariamente a todas as previsões, a DHL Express Portugal está a crescer de forma muito significativa em 2025, tal como aconteceu em 2024.

Mesmo no meio de turbulências, tensões geopolíticas, guerras na Euro­pa e logo após uma pandemia global, Portugal tem apresentado resultados sólidos e consistentes.

Este crescimento também se deve ao aumento do e-commerce, correcto?

Sim, durante a pandemia, o e-commerce alavancou de forma muito significativa a nossa indústria, com crescimentos acima dos 20%.

Actualmente, o business to consumer (B2C) deve corresponder a cerca de 22% da nossa facturação. Por isso, a relação da DHL Express com as empresas, principalmente as pequenas e médias empresas (PME), é muito importante.

O tecido empresarial português é constituído maioritariamente por micro e PME, e diria que 99% deste, cerca de 80% são microempresas. São empresas com grande margem de crescimento, e nós, como multinacional, podemos ajudá-las na sua jornada de crescimento, apoiando na sua internacionalização.

E para além da internacionalização, o que procuram oferecer nos vossos serviços?

O cliente procura qualidade de serviço e apoio. Procura conhecimento, e nós te­mos esse conhecimento. Sabemos como funcionam as diferentes economias do mundo, como as encomendas podem ser tramitadas, especialmente fora do espaço comunitário.

Os clientes procuram apoio quase numa lógica de consultoria, para poderem en­trar em processos de internacionalização.

Organizamos eventos, como o DHL Trade Summit, onde convidamos clien­tes. É um fórum de discussão com especialistas da DHL sobre mercados emergentes e outras áreas de interesse. Também fazemos webinars com câmaras de comércio. Isso ajuda a construir uma relação de confiança com os clientes.

Quando se fala em enviar algo rapidamente, diz-se muitas vezes “envia um DHL”. A marca é reconhecida. E os clientes sabem que, sempre que há um problema, a DHL responde rapidamente, porque as encomendas têm urgência e confiança.

Tem de ser uma resposta à altura daquilo que são as expectativas e as necessidades dos clientes.

Este crescimento levou à criação de uma nova infra-estrutura no Aeroporto do Porto. Qual a necessidade deste terminal?

Estamos aqui desde 2012. Com os crescimentos significativos, percebemos que precisávamos expandir ou aumentar a capacidade destas instalações. Em 2022, submetemos à aprovação o pedido de expansão e investimos 25 milhões de euros.

Actualmente, conseguimos manusear cerca de 6.500 peças por hora na cinta, um aumento de 150%, e na exportação cerca de 5.000 peças por hora, um in­cremento de 300%. É um investimento importante, ainda com margem de crescimento. Temos três “fingers” e há possibilidade de construir um quarto, dimensionando as instalações para 15 a 20 anos.

“Fingers” são os locais onde acostam os veículos. Actualmente, temos três. Existe a possibilidade de construção de mais um, o que nos dá margem de manobra para podermos continuar a crescer.

Julgo que podemos crescer durante pelo menos uma década, a um ritmo de 10% ao ano.

Fotografia: Egídio Santos

Quais são os principais mercados onde operam a partir do Porto?

As principais origens são França, Itália, Países Baixos, Alemanha e China — que passa para o primeiro lugar durante a peak season. Os principais destinos são França, EUA, Alemanha, Reino Unido e Itália. Este padrão mantém-se ao longo do ano.

«A ECONOMIA PORTUGUESA CONTINUA A SER PEQUENA, MAS, NOS ÚLTIMOS ANOS, FIZEMOS ENORMES PROGRESSOS»

E quais foram os factores críticos para o sucesso deste investimento?

Relacionam-se com o crescimento, que exigiu maior capacidade operacional.

Processamos carga mais rapidamente, aumentamos a janela horária, podemos fazer recolhas até mais tarde, oferecendo enorme vantagem aos clientes.

Também investimos em tecnologia: raios X automáticos, pesagem e medição volumétrica, optimização de tarefas operacionais, planeamento de rotas com Inteligência Artificial (IA) e digitalização de processos. Isto permite-nos dar mais qualidade de serviço e maior capacidade.

Qual é o impacto deste terminal na eco­nomia local?

Neste terminal temos cerca de 200 trabalhadores, o que já revela o im­pacto que temos na empregabilidade local. Para além da criação de emprego, apoiamos a internacionalização das empresas, com transportes ágeis e efi­cientes, e reforçamos equipas durante a peak season.

Quais os principais sectores que procuram os vossos serviços?

Moda (têxteis, sapatos, acessórios, cos­mética), automotivo e tecnologia. Para o Porto, a moda inclui vestuário, calçado, acessórios e cosmética.

Que melhorias ou investimentos estão previstos?

Queremos ter uma plataforma de nível semelhante em Lisboa. Inicialmente estava prevista a construção de uma plataforma no aeroporto, mas estamos à procura de um terreno na Grande Lisboa.

Gostávamos de ter condições idênti­cas a estas em Lisboa. O investimento inicialmente previsto para Lisboa era de cerca de 51 milhões de euros. Trata­-se de um valor bastante interessante, quer para Lisboa, quer também para a economia nacional, porque estes inves­timentos têm impacto.

Mais à frente, daqui a 10 ou 12 anos, quando tivermos um novo aeroporto, vamos ter também aí instalações. Por isso, aquilo que nós temos como pipe­line de investimentos para Lisboa são instalações na Grande Lisboa, dentro da Grande Lisboa, e depois umas ins­talações no aeroporto.

Este terminal será suficiente para os próximos 5 a 10 anos?

Sim, estas instalações suportam uma década de crescimento a 10% ao ano. A cinta não está no máximo, existe margem de crescimento. Será neces­sário adaptar tecnologia, mas não vamos precisar de ampliar fisicamente as instalações.

E quanto ao sector da logística em geral? Quais as tendências?

A globalização continua, e precisamos de logística moderna. A DHL investe em IA, automação e tecnologias avançadas para se manter competitiva e oferecer soluções de ponta.

Nós estamos na DHL Express, exis­tem outras unidades de negócio. Por isso, diria que a indústria da logística tem de ser vanguardista e progressis­ta e implementar aquilo que são as tendências tecnológicas do momento.

Portugal está cada vez mais conectado com o mundo, segundo um relatório de conectividade que produzimos com a Universidade de Nova Iorque. Apesar das tensões geopolíticas, não há sinais de desglobalização.

O Governo tem apoiado este potencial de internacionalização?

Sim. O último ministro da Economia, Pedro Reis, esteve próximo das empre­sas, apoiando processos de internacio­nalização e diplomacia económica. O novo ministro poderá seguir as boas práticas anteriores. O apoio do Governo é importante, mas a responsabilidade final é das empresas. Os empresários portugueses mostram cada vez mais vontade e preparação para crescer e internacionalizar-se.

«OS EMPRESÁRIOS PORTUGUESES ESTÃO CADA VEZ MAIS PREPARADOS PARA INTERNACIONALIZAREM AS SUAS EMPRESAS OU OS SEUS PRODUTOS»

E os empresários portugueses têm essa vontade, essa ambição?

Sim, sim. Eu estou cada vez mais con­vencido que os empresários portugueses estão, desculpe a redundância, cada vez mais preparados para internacionaliza­rem as suas empresas ou os seus produtos.

Estão muito interessados em passar do micro para o macro, porque uma empresa para crescer e para ganhar di­mensão tem de entrar nesse processo de internacionalização, porque o mercado português é um mercado muito pequeno e nós temos muitos bons exemplos.

Começamos a ver tecnológicas a de­monstrarem um nível de competitividade muito elevado em comparação com em­presas de outras nacionalidades, por isso eu diria que sim, acho que estamos num bom momento, acho que os empresários portugueses estão num bom momento, acho que há de facto muito potencial e há muita margem de crescimento.

Para si, o que é um bom líder?

Um bom líder é aquele que ouve as pessoas. A informação mais importante vem do terreno, e as pessoas devem sentir que são escutadas e valorizadas.

 

 

Fotografia: Egídio Santos

À FRENTE DA ROTA DHL

José Reis, CEO da DHL Express Portugal, nasceu no Peso da Régua e vive actualmente na cidade do Porto. Licenciado em gestão, iniciou a sua carreira na DHL em 1996 na área financeira, onde permaneceu cerca de oito anos, antes de assumir funções como Business Development Director e Head of Customer Service. Em 2018, foi nomeado CEO da DHL Express em Portugal, liderando a empresa com foco estratégico e operacional.

José Reis valoriza um estilo de vida activo, pratica corrida, padel e, mais recentemente, Ioga, que lhe proporciona equilíbrio e paz de espírito. Apaixonado por leitura e viagens, combina a intensidade do dia-a-dia executivo com momentos de reflexão, integrando bem-estar pessoal e liderança profissional.

 

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