As autoridades israelitas preparam-se para uma das maiores manifestações dos últimos anos, marcada para esta quinta-feira, em Jerusalém. Centenas de milhares de judeus ultraortodoxos (Haredim) deverão reunir-se à entrada da cidade para protestar contra o recrutamento obrigatório de estudantes de yeshiva, num evento descrito como uma “oração de um milhão de pessoas”.
A manifestação, prevista para as 14h30 e com duração aproximada de duas horas, deverá provocar um autêntico colapso no trânsito. A polícia anunciou o encerramento da principal via de acesso à cidade, a Autoestrada 1, que liga Jerusalém a Telavive, entre o nó de Latrun e Givat Shaul, a partir do meio-dia. Durante esse período, apenas autocarros previamente autorizados e que transportem participantes serão autorizados a entrar na capital.
Segundo um comunicado policial, “a circulação de veículos privados estará interditada em ambas as direções, e apenas transportes organizados terão permissão de acesso”. As alternativas para quem pretende sair da cidade passam pela Rota 443 e pela Rota 16, mas mesmo nesses percursos são esperados fortes congestionamentos.
A operação de segurança mobilizará centenas de agentes nas entradas norte da cidade e no centro urbano. O Ministério dos Transportes confirmou o reforço dos serviços públicos, com mais comboios e autocarros disponíveis, como explicou a ministra Miri Regev em declarações à rádio Kol Hai: “Agiremos como fazemos em todos os grandes eventos. Assim que identificarmos pontos de congestionamento, reforçaremos o transporte público. A Israel Railways aumentará o número de comboios para Jerusalém, e os operadores de autocarros farão o mesmo.”
Regev, do partido Likud, sublinhou ainda o seu apoio à conscrição de Haredim que não estudam em seminários religiosos. No entanto, a posição da ministra gerou críticas por aparentar contrastar com declarações feitas em 2023, quando afirmou ao portal Ynet que o ministério “não é uma empresa de transportes para manifestações”, numa referência aos protestos antigovernamentais desse ano.
Manifestação sem discursos políticos e com apelo à calma
O protesto, que reunirá várias correntes da comunidade ultraortodoxa — lituana, hassídica e sefardita —, foi convocado após a detenção de Ariel Shamai, um estudante da prestigiada yeshiva Ateret Shlomo, em Rishon Lezion. O caso despertou forte indignação no seio religioso, sendo visto como uma “linha vermelha” pelo facto de Shamai ser um estudante em tempo integral.
Os organizadores garantem que o evento será estritamente religioso, centrado na leitura de salmos e em orações públicas, sem discursos políticos. Cada grupo ficará em áreas separadas, liderado pelo seu rabino ou Rebe, enquanto um cantor guiará as preces conjuntas.
O rabino Dov Landau, uma das mais respeitadas autoridades espirituais da vertente lituana, apelou à moderação num comunicado publicado no diário Yated Ne’eman: “É nosso dever exercer extrema cautela e cumprir o mandamento de guardar diligentemente as nossas vidas.” O líder religioso pediu ainda aos participantes que “não se envolvam em confrontos com as autoridades”, sublinhando que o objetivo é “santificar o nome de Deus através da conduta”.
Landau recomendou também que mulheres e raparigas em todo o país permaneçam em casa, dedicando-se à recitação de salmos, enquanto as casadas que desejem participar o façam numa área reservada e afastada, “para manter a modéstia”.
Críticas políticas e contra-manifestação anunciada
O evento gerou reações imediatas no panorama político israelita. O recém-formado partido The Reservists, liderado pelo antigo ministro das Comunicações Yoaz Hendel, anunciou uma contra-manifestação para a mesma data, acusando o governo de “encorajar a evasão militar”. Num comunicado, o partido afirmou: “Um governo que encoraja a evasão e coopera descaradamente com a manifestação da evasão é um governo que age contra o Estado de Israel.”
Parlamentares da oposição, como Karine Elharrar, do partido Yesh Atid, dirigiram-se à procuradora-geral Gali Baharav-Miara, acusando Miri Regev de “abuso de autoridade” e de agir “de forma discriminatória ao reforçar transportes para uns protestos e não para outros”. Elharrar apelou a uma “verificação urgente da legalidade da decisão”.
Enquanto isso, deputados do Likud, como Shlomo Karhi, Avichai Boaron e Osher Shekalim, expressaram apoio à manifestação e ponderam participar, sublinhando que “se identificam com os manifestantes”.
Embora o evento tenha sido anunciado como uma “manifestação de um milhão”, as autoridades estimam que cerca de meio milhão de pessoas poderão concentrar-se nas imediações da Ponte das Cordas e das avenidas Yirmiyahu, Shazar, Jaffa, Sarei Yisrael e Malchei Yisrael. A polícia alerta que os encerramentos transformarão Jerusalém numa “ilha isolada do centro de Israel durante várias horas”, pedindo à população para evitar a zona e seguir as instruções dos agentes e das aplicações de navegação em tempo real.














