Conservador, monárquico e simpatizante da ditadura, Miklós Horthy foi o único almirante a chefiar o Estado de um país europeu. Liderou a Hungria entre as duas guerras mundiais e acabou os seus dias em exílio em Portugal, onde publicou as suas memórias em 1965.
Nascido a 18 de junho de 1868, em Kenderes, numa altura em que a Hungria integrava o Império Austro-Húngaro, Horthy era oriundo de uma família nobre protestante. Aos 14 anos ingressou na academia naval austro-húngara de Fiume — atual Rijeka, na Croácia — iniciando uma carreira militar que o levaria ao topo da hierarquia naval.
Entre 1909 e 1914, serviu como ajudante de campo do imperador Francisco José, e durante a Primeira Guerra Mundial destacou-se como comandante da marinha austro-húngara, conseguindo por diversas vezes romper o bloqueio aliado no mar Adriático. A sua competência militar valeu-lhe a promoção a almirante em 1918, ano em que supervisionou a transferência da frota austro-húngara para a recém-formada Jugoslávia, após o colapso do império.
Com o fim da guerra e o caos político que se seguiu, Horthy tornou-se uma figura central na contraofensiva ao regime comunista que se instalara na Hungria. A pedido do governo contrarrevolucionário de Szeged, organizou um exército para combater os comunistas — um movimento que marcaria o início da sua carreira política.
Em 1920, o Parlamento húngaro, eleito em janeiro desse ano, decidiu restaurar a monarquia. No entanto, sem um rei presente, Horthy foi nomeado regente, tornando-se chefe de Estado da Hungria. Apesar de ter prestado juramento de lealdade à coroa, o almirante rapidamente consolidou o seu poder e frustrou as tentativas do rei deposto, Carlos IV, de recuperar o trono.
Durante o seu longo regimento, que durou até 1944, Horthy impôs um governo conservador e autoritário. Embora não fosse inicialmente simpatizante de Adolf Hitler, via na Alemanha nazi um aliado útil contra o bolchevismo. Segundo a Encyclopaedia Britannica, Horthy “concordou com a adesão da Hungria ao lado alemão na Segunda Guerra Mundial”, vendo-a como uma forma de conter a influência soviética e recuperar territórios perdidos após o Tratado de Trianon.
No entanto, o almirante voltaria a mudar de posição. Quando se tornou claro que a Alemanha estava a perder a guerra, tentou negociar a saída da Hungria do conflito e um armistício com os Aliados. O gesto teve consequências imediatas: Horthy foi sequestrado pelas forças alemãs e forçado a abdicar, sendo deportado para a Alemanha.
Após o fim da guerra, o antigo regente viveu exilado primeiro na Baviera e, mais tarde, em Portugal, país que o acolheu até à sua morte. Faleceu em 1957, em Estoril, onde viveu discretamente os seus últimos anos. As suas memórias, publicadas em 1965 sob o título Documentos Confidenciais, foram escritas durante o exílio português e refletem a visão de um homem que foi tanto militar de carreira como símbolo controverso da política europeia do século XX.
Miklós Horthy permanece até hoje uma figura ambígua: lembrado por uns como um herói nacional e por outros como colaborador de regimes autoritários, foi o único almirante a ascender à chefia de Estado na história da Europa moderna — e o único presidente europeu a terminar a vida em exílio em Portugal.






