Israel diz que vai abrir fronteira de Gaza, mas apenas para a saída de palestinianos

Israel anunciou esta quarta-feira que está a preparar a reabertura limitada da passagem de Rafah, na fronteira entre o sul da Faixa de Gaza e o Egito, permitindo apenas a saída de alguns palestinianos “nos próximos dias”.

Pedro Gonçalves
Dezembro 3, 2025
15:35

Israel anunciou esta quarta-feira que está a preparar a reabertura limitada da passagem de Rafah, na fronteira entre o sul da Faixa de Gaza e o Egito, permitindo apenas a saída de alguns palestinianos “nos próximos dias”. A medida, vista como uma potencial linha de vida para os habitantes do enclave que procuram escapar da devastação, surge ainda envolta em incertezas políticas e operacionais, sobretudo porque o governo egípcio rejeita qualquer coordenação imediata para reativar o cruzamento.

De acordo com o organismo militar israelita responsável pela coordenação humanitária, conhecido como COGAT, a passagem funcionará num único sentido, permitindo que palestinianos deixem Gaza, mas impedindo o seu regresso. O mecanismo seria supervisionado com apoio da União Europeia, em articulação com Egito e Israel.

No entanto, o Cairo desmentiu rapidamente qualquer entendimento com Telavive. A autoridade estatal de informação egípcia recordou que a trégua acordada entre Israel e o Hamas em outubro previa que Rafah fosse aberta nos dois sentidos, o que também permitiria que dezenas de milhares de palestinianos deslocados para o Egito pudessem regressar às suas casas. Um porta-voz do COGAT não respondeu de imediato aos pedidos de esclarecimento sobre a posição egípcia.

A possível reativação da passagem surge na sequência da entrega por militantes palestinianos de alguns dos últimos corpos de reféns retidos em Gaza, estando ainda dois desaparecidos. Na quarta-feira, o Hamas indicou que iria entregar mais um corpo através do Comité Internacional da Cruz Vermelha.

Logo após a trégua de outubro entrar em vigor, o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, determinou que Rafah permaneceria fechada até que o grupo entregasse todos os restos mortais de israelitas e cidadãos estrangeiros que ainda se encontrassem no enclave.

Operação continua envolta em incertezas
Não está claro quando a fronteira poderá voltar a operar nem quantos palestinianos poderão atravessá-la. Durante os primeiros meses da guerra, Rafah foi o principal ponto de saída para quem conseguiu fugir, sobretudo doentes e feridos em busca de tratamento médico no estrangeiro. Israel permitiu igualmente a saída de alguns doentes pelo seu próprio território.

As operações foram interrompidas em maio de 2024, quando forças israelitas entraram em Rafah e assumiram o controlo da passagem. A falta de acordo entre Israel e Egito deixou inúmeros palestinianos sem acesso a cuidados vitais. A Organização Mundial da Saúde estima que pelo menos 16.500 doentes e feridos continuam sem tratamento adequado na Faixa de Gaza.

Passagem funcionou brevemente durante cessar-fogo de fevereiro
Rafah reabriu por um curto período em fevereiro, durante um cessar-fogo que colapsou em meados de março. Nessa altura, monitores fronteiriços da União Europeia e agentes da Autoridade Palestiniana apoiaram o funcionamento do posto de passagem.

Ao longo da guerra, a esmagadora maioria dos palestinianos de Gaza não conseguiu fugir para países vizinhos. Entre aqueles que saíram, muitos dependeram de autorizações conjuntas dos serviços de segurança israelitas e egípcios.

Questão dos reféns continua a marcar negociações
Mais de 250 israelitas e cidadãos estrangeiros foram feitos reféns durante o ataque liderado pelo Hamas a 7 de outubro de 2023, que desencadeou a guerra. Dois cessar-fogo de curta duração permitiram libertar mais de 130 sobreviventes. As forças israelitas resgataram outros e recuperaram corpos de vítimas.

Em outubro deste ano, o Hamas libertou os últimos 20 reféns com vida e comprometeu-se a entregar todos os restos mortais que permaneciam em Gaza. Porém, o processo tem sido lento: o grupo afirma que alguns corpos foram destruídos nos escombros, enquanto responsáveis israelitas acusam o Hamas de atrasar deliberadamente o procedimento.

Atualmente, dois corpos — um israelita e um tailandês — continuam desaparecidos em Gaza. Equipas do grupo, acompanhadas pelo Comité Internacional da Cruz Vermelha, têm conduzido escavações em várias zonas à procura dos restos mortais.

Se forem encontrados, as autoridades israelitas farão testes forenses para confirmar se correspondem aos dois últimos reféns desaparecidos. Na terça-feira, o Hamas entregou restos mortais que Israel concluiu não pertencerem a nenhum dos reféns.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.