A rápida expansão da Inteligência Artificial (IA) está a colocar os mercados financeiros e os decisores económicos perante um dilema com impacto à escala global: a tecnologia será o motor de uma nova vaga de crescimento económico e produtividade ou estará a formar-se uma bolha que poderá desencadear uma correcção nos mercados e uma desaceleração económica mundial?
Uma análise liderada por David Rees, responsável pela área de Economia Global da Schroders, sobre os cenários económicos da IA aponta para dois caminhos possíveis a partir de 2026. Num cenário de “AI Boom”, a tecnologia revela-se profundamente transformadora, impulsionando o investimento, a produtividade e o crescimento económico em várias regiões do mundo. Em alternativa, um cenário de “AI Bust” pressupõe o colapso de uma bolha associada às empresas tecnológicas, com efeitos negativos que se propagariam pelos mercados financeiros e pela economia global.
Ambos os cenários partem de um contexto macroeconómico ainda robusto e de elevados planos de investimento por parte das grandes empresas tecnológicas e de computação em nuvem, que deverão sustentar o investimento e o desempenho dos mercados durante grande parte de 2026. O ponto de viragem poderá surgir no final do ano, quando investidores e empresas começarem a questionar a capacidade de monetização dos elevados investimentos em Inteligência Artificial.
Num cenário de correcção, a redução abrupta do investimento tecnológico teria efeitos em cadeia, afectando o emprego, a confiança dos consumidores e a actividade económica em várias economias desenvolvidas. Uma queda prolongada do investimento poderia conduzir a um período de crescimento fraco ou mesmo recessivo, com impactos diferenciados entre regiões, mas com reflexos evidentes no comércio internacional e nos fluxos de capitais.
Já no cenário mais optimista, a comprovação de que tecnologias como modelos de linguagem avançados, robótica autónoma e veículos autónomos geram ganhos reais de eficiência e rentabilidade poderá desencadear uma rápida adopção à escala global. Este processo teria potencial para elevar significativamente a produtividade, acelerar o crescimento económico e permitir o surgimento de novos líderes empresariais em diferentes sectores e geografias.
Apesar dos benefícios potenciais, a análise alerta para riscos estruturais associados a uma adopção acelerada da IA. A substituição de trabalhadores por tecnologia poderá pressionar os mercados de trabalho e o consumo, enquanto a corrida ao investimento em infra-estruturas digitais poderá gerar tensões inflacionistas em sectores como a energia e os bens industriais. O aumento da procura energética, impulsionado pelos centros de dados, poderá também ter impacto nos preços da electricidade e, indirectamente, noutras cadeias de produção.
Este contexto cria um ambiente particularmente desafiante para governos e bancos centrais. Um cenário de forte crescimento da produtividade acompanhado por maior desemprego exigiria uma reavaliação das políticas fiscais, dos sistemas de protecção social e dos modelos de tributação, num debate que se estenderia para além das principais economias e assumiria uma dimensão global.
Para investidores e decisores, a mensagem é clara: com cenários tão divergentes — desde um novo ciclo de crescimento económico impulsionado pela tecnologia até uma correcção significativa dos mercados — acompanhar de perto a evolução da Inteligência Artificial será essencial. Num momento em que a IA tanto pode acelerar a economia mundial como expor fragilidades estruturais, a complacência poderá revelar-se um dos maiores riscos.














