A Inteligência Artificial já faz mexer Porto e Braga: a consultora LTPlabs desenvolveu dois projetos de IA para câmaras municipais — o Leme e o Vitral, respetivamente — de duas plataformas públicas nas quais todos os cidadãos podem encontrar dados reais provenientes de várias fontes institucionais credíveis — locais, nacionais e internacionais — e cruzar os mesmos para inúmeras aplicações.
Autarquias, investidores, empresas, estudantes, investigadores, forças policiais: quem pretender trabalhar em projetos ou tomar decisões com base em dados reais e atualizados, tem agora uma plataforma de suporte para tomar decisões mais informadas.
Pedro Schuller, Head of Public Sector na consultora LTPlabs, deu uma entrevista à ‘Executive Digest’ para avaliar o impacto dos projetos, mas sobretudo como pode a IA tornar-se uma ferramenta essencial para mais e melhores decisões.
1. A IA ao serviço da população como orientadora de decisões: de forma que se processa, qual o impacto? Como podem as cidades beneficiar desta transformação tecnológica e em que áreas poderá ter maior efeito?
A utilização da Inteligência Artificial (IA) nas cidades ocorre essencialmente através da recolha e da concentração contínua de grandes quantidades de dados provenientes de diversas fontes públicas e privadas. A posteriori, estes dados são tratados por algoritmos de aprendizagem automática e por modelos preditivos, o que serve de gatilho para antecipar necessidades, otimizar serviços e direcionar recursos com maior precisão. O impacto desta tecnologia é substancial, permitindo levar a cabo decisões mais céleres, eficazes e claras. As áreas com maior potencial incluem mobilidade urbana, gestão de resíduos e energia, habitação acessível, saúde e segurança, contribuindo de modo significativo para devolver mais qualidade de vida aos cidadãos e sustentabilidade às cidades.
2. Como resultaram os projetos em Braga e no Porto? Como beneficiaram e de que forma trouxe outra visão? Há planos de expansão para demais cidades do país? Se sim, quais?
O Vitral, em Braga, e o Leme, no Porto, são plataformas digitais que centralizam e estruturam dados socioeconómicos — turismo, saúde, imobiliário, consumo (…) —, proporcionando análises rápidas e rigorosas através de dashboards interativos. Estas soluções possibilitaram às câmaras municipais prever problemas, tomar decisões fundamentadas e priorizar com propriedade e de maneira mais robusta os investimentos estratégicos.
O feedback tem sido muitíssimo positivo, sobretudo no aumento da transparência e da ação cívica, o que se traduz numa visão integrada e proativa da administração urbana. No entanto, o foco da LTPlabs está na melhoria das decisões, em relação à qual os dashboards são apenas uma parte inicial. Não basta ter a informação visível, é vital transformar os processos e influenciar as escolhas e as políticas diretamente através da evidência que a informação traz. É aí que a LTPlabs imprime mais valor e está a desenvolver a sua oferta nesse sentido.
3. Qual é a aceitação das entidades públicas? Ou seja, nota-se alguma resistência/receio/desconhecimento sobre as potencialidades da IA?
Embora existam desafios naturais no que toca à resistência à mudança e alguma apreensão no que diz respeito à complexidade tecnológica, o interesse das entidades públicas em IA tem aumentado de modo considerável. Observamos uma maior disponibilidade para ter em atenção as suas vantagens claras, especialmente quando demonstrados resultados concretos e ganhos tangíveis. Para ultrapassar barreiras iniciais, é essencial investir em formação específica e em sensibilização contínua, o que acomoda uma transição consciente e confiante para a gestão baseada em dados.
4. Além de cidades, essa informação disponibilizada a empresas, investigadores, jornalistas, de que forma pode acelerar a tomada de decisão? Como pode ser usada em benefício do objetivo pretendido?
A disponibilização aberta e estruturada dos dados urbanos representa uma enorme mais-valia, alavancando decisões velozes e baseadas em factos para empresas, investigadores e jornalistas. As organizações podem identificar oportunidades comerciais e rentabilizar operações; a academia beneficia ao realizar estudos diferenciados que conduzem a políticas públicas de qualidade; os media têm acesso facilitado a conteúdos rigorosos, elevando a transparência e o rigor nas comunicações públicas. Esta partilha gera um ciclo virtuoso de inovação, crescimento económico e uma sociedade mais bem informada e participativa.
5. Quem controla a informação disponibilizada pela IA? E de que forma se garante que esta não é ‘editada’? Que género de informação seria disponibilizada? Qual seria a de maior impacto — a tradicional ou a generativa?
A governança dos dados é crítica. As plataformas são orientadas pelas entidades públicas com auditorias regulares e protocolos de transparência para proteger a integridade dos dados. A utilização de blockchain (banco de dados em que não é possível excluir nem modificar os mesmos sem o consenso da rede) e de outros mecanismos de validação automática ajuda a prevenir manipulações. Quanto ao tipo de informação, tanto a IA Tradicional (descritiva e preditiva) como a IA Generativa têm o seu papel. A primeira fornece dados sólidos para decisões com base em factos, enquanto a segunda humaniza e agiliza interações com cidadãos através de relatórios automáticos e recomendações personalizadas. Ambas coexistem, oferecendo complementaridade e amplificando o impacto das escolhas dos decisores públicos.
6. O futuro é cada vez mais dedicado à IA? Como prevê a realidade das cidades dentro de uma década, por exemplo?
Na próxima década, a IA será incontornável na gestão das cidades. Prevemos que estas sejam bastante mais inteligentes, eficientes, sustentáveis e inclusivas. Através da integração massiva de sensores, IoT (usar internet para interagir com objetos) e IA, teremos infraestruturas urbanas altamente adaptativas, transportes públicos otimizados e personalizados, gestão ambiental proativa e sistemas habitacionais que respondem em tempo real às necessidades dos munícipes. Contudo, esta evolução tecnológica deve sempre ocorrer com forte componente ética, regulamentação cuidadosa e intervenção ativa das comunidades, assegurando que a tecnologia sirva, de facto, para melhorar a qualidade de vida das pessoas e não se torne um fim em si mesma.





