O Parlamento Europeu voltou a denunciar a deterioração acelerada da democracia na Hungria, ao mesmo tempo que os Governos da União Europeia continuam incapazes de travar a deriva autoritária de Viktor Orbán ou de contornar o seu veto sistemático a decisões sobre a Ucrânia e as sanções contra Moscovo.
De acordo com o jornal ‘El Español’, o primeiro-ministro húngaro consolidou uma influência desproporcionada em Bruxelas, usada para bloquear iniciativas essenciais para a segurança europeia.
Parlamento declara Hungria “regime híbrido de autocracia eleitoral”
Esta terça-feira, o hemiciclo aprovou por larga maioria um relatório que alerta para violações persistentes do Estado de direito, descrevendo a Hungria como um “regime híbrido de autocracia eleitoral”. O texto foi apoiado pela chamada ‘Grande Coligação’ — democratas-cristãos, socialistas, liberais e verdes — com o apoio adicional da esquerda. Já os três grupos de extrema-direita votaram contra.
Os eurodeputados criticam a interferência do executivo de Orbán no poder judicial, redes de clientelismo e corrupção, a utilização indevida de fundos comunitários e ataques constantes à sociedade civil. Entre os problemas apontados estão o enfraquecimento do Conselho Nacional da Magistratura, pressões sobre a liberdade académica, concentração da publicidade estatal em meios pró-governamentais e a proibição de facto das marchas LGBTQIA+.
O relatório exige ainda que a Comissão publique rapidamente os resultados da investigação sobre uma alegada rede de espionagem húngara nas instituições europeias, envolvendo o comissário Olivér Várhelyi.
Alarmes sobre desinformação e deepfakes antes das eleições de 2026
O documento alerta igualmente para a proliferação de conteúdos políticos gerados por inteligência artificial na Hungria, incluindo vídeos deepfake ligados ao partido de Orbán, com o objetivo de confundir eleitores e desacreditar adversários. Os eurodeputados acusam a Comissão de não conseguir travar a deriva autoritária e permitir o enfraquecimento continuado do Estado de Direito.
O comissário europeu para a Justiça, Michael McGrath, defendeu-se das críticas, recordando que Budapeste tem atualmente 18 mil milhões de euros congelados e perdeu definitivamente mil milhões de euros da sua dotação inicial de coesão. Bruxelas mantém ainda uma série de processos de infração relacionados com liberdades académicas, imprensa, direitos de migrantes e proteção de pessoas LGBTIQ.
UE considera usar “botão nuclear”, mas processo está bloqueado
O último recurso disponível seria acionar plenamente o artigo 7º do Tratado e suspender o direito de voto da Hungria no Conselho. O procedimento foi iniciado em 2018, mas permanece paralisado: a suspensão exige unanimidade e Orbán conta com o apoio do primeiro-ministro eslovaco, Robert Fico.
Sem consenso entre os Estados-membros, cresce a aposta política numa eventual derrota do Fidesz nas eleições de abril de 2026. As sondagens dão vantagem a Péter Magyar, antigo aliado de Orbán que se afastou após acusar o Governo de corrupção e autoritarismo.
A preocupação em Bruxelas é que novos Governos alinhados com a Hungria — como o de Andrej Babiš, caso vença na Eslovénia — impeçam definitivamente qualquer resposta europeia caso Orbán mantenha o poder. A UE receia que este bloqueio prolongado comprometa a segurança comum, a política externa e a capacidade de resposta à guerra na Ucrânia.














