O Hamas deu sinais de que poderá aceitar o plano de paz para Gaza apresentado pelos Estados Unidos e Israel, mas apenas se forem introduzidas alterações a cláusulas consideradas essenciais. Fontes próximas das negociações, que decorrem em Doha, indicaram que o movimento palestiniano já transmitiu aos mediadores — entre eles responsáveis do Qatar, do Egito e da Turquia — a necessidade de rever pontos como o desarmamento e a exigência de garantias internacionais para uma retirada total de Israel da Faixa de Gaza.
O presidente norte-americano, Donald Trump, tinha dado um ultimato ao grupo palestiniano, afirmando na terça-feira que o Hamas teria “três ou quatro dias” para responder ao plano ou “pagar no inferno”. “Estamos apenas à espera do Hamas”, declarou. “O Hamas ou vai fazê-lo ou não vai, e se não for, será um fim muito triste.” O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, alinhou no mesmo tom, advertindo que o movimento não tem “muita margem de negociação” e que terá de aceitar os termos apresentados.
Apesar do tom duro, uma fonte palestiniana disse à imprensa internacional que o Hamas está “inclinado a aceitar” a proposta, desde que os mediadores incluam modificações que assegurem “garantias internacionais para uma retirada israelita completa” e que evitem a repetição de violações do cessar-fogo, “como está a acontecer atualmente no Líbano”. A mesma fonte acrescentou que os responsáveis palestinianos querem ainda garantias contra eventuais operações de assassinato de dirigentes dentro ou fora de Gaza.
O plano apresentado por Trump prevê 20 pontos centrais: um cessar-fogo imediato, a libertação de reféns por parte do Hamas no prazo de 72 horas, a desmilitarização total do movimento, a retirada gradual das forças israelitas da Faixa de Gaza e a criação de um “conselho de paz” liderado pelo próprio presidente dos EUA, com a participação de figuras internacionais como o antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair.
Segundo o canal saudita Al-Sharq, o Hamas já terá comunicado que está disposto a aceitar a estrutura do plano “na forma em que foi apresentada aos líderes árabes” antes de Netanyahu introduzir alterações. Ainda assim, há divisões internas. Uma fonte citada pela AFP sublinhou que existem “duas correntes dentro do Hamas”: a primeira defende a aceitação imediata e sem reservas, desde que Trump e os mediadores garantam a aplicação do acordo por Israel; a segunda mostra “fortes reservas” em relação a cláusulas fundamentais, rejeitando o desarmamento e qualquer possibilidade de expulsão de cidadãos palestinianos de Gaza.
Um dos responsáveis ouvidos pela agência resumiu: “Apoiam um acordo condicionado, com esclarecimentos que tenham em conta as exigências do Hamas e das fações de resistência, para que a ocupação da Faixa de Gaza não seja legitimada enquanto a resistência é criminalizada.”
O primeiro-ministro do Qatar, Sheikh Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, reconheceu na terça-feira, em entrevista à Al Jazeera, que o plano ainda precisa de ajustes. “A questão da retirada israelita, claro, exige clarificação e algum trabalho. Creio que isto deve ser discutido em detalhe, sendo sobretudo uma responsabilidade do lado palestiniano em conjunto com o lado israelita”, declarou.
Apesar da pressão internacional e do prazo imposto por Trump, fontes próximas das negociações asseguram que a resposta oficial do Hamas poderá ser dada dentro de “dois ou três dias no máximo”. Até lá, continuam os contactos com outras fações palestinianas, como a Jihad Islâmica, para tentar alcançar uma posição unificada.














