Carrapatos ou carraças são pequenos aracnídeos ectoparasitas hematófagos, responsáveis pela transmissão de inúmeras doenças. Uma das mais ‘invulgares’ é a capacidade de transformar um ser humano intolerante a carne animal. Explicando: análises de sangue a pessoas picadas por carraças revelaram anticorpos associados ao alfa-gal, um açúcar encontrado na carne e gordura de mamíferos não primatas. O síndrome alfa-gal (AGS) é uma reação alérgica que pode surgir depois de alguém ter sido picado.
Normalmente, quando uma pessoa come carne de mamíferos não primatas, como vacas e porcos, o organismo não reage à alfa-gal. Mas quando uma picada de um carrapato introduz a molécula, o sistema imunológico reconhece-a como invasora e produz anticorpos conhecidos como imunoglobulina E (IgE) adaptados contra ela. Os anticorpos IgE ligam-se aos glóbulos brancos que combatem doenças chamados basófilos na corrente sanguínea e mastócitos nos tecidos. Na próxima vez que essas células entrarem em contato com alfa-gal de qualquer fonte, incluindo carne, os anticorpos vão reconhecer e o sistema imunológico vai procurar atacar.
Ora, a formação de IgE “pode ser considerada como o carregar de uma arma”, explicou Scott Commins, chefe associado de alergia e imunologia da Faculdade de Medicina da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, e um dos principais investigadores da AGS. “Comer carne de mamífero subsequentemente puxa o gatilho.”
As reações alérgicas, que normalmente começam entre duas e seis horas após a ingestão de alfa-gal, variam de pessoa para pessoa – podem ser tão leves como um formigamento na boca ou tão extremos como um choque anafilático. Algumas pessoas com AGS podem comer um cheeseburger duplo e sentir apenas uma leve comichão nas palmas das mãos ou urticária. Outros que consomem uma pequena quantidade de gordura de porco podem entrar em anafilaxia total.
Atualmente, não há tratamento ou antídoto para a própria AGS. A epinefrina (ou adrenalina) é o tratamento de primeira linha para anafilaxia e algumas outras reações alérgicas podem ser tratadas com medicamentos, incluindo anti-histamínicos e corticosteroides.
Nos Estados Unidos, há atualmente 34 mil americanos diagnosticados com AGS mas a sensibilidade à carne não parece ser permanente – geralmente desaparece entre 4 e 5 anos. Isso porque as células do sistema imunológico que criam a resposta de IgE são células B imaturas chamadas plasmablastos. Essas células, segundo Commins, não parecem converter-se em células de memória imunológica de longo prazo – da mesma forma que as células de memória imunológica desencadeadas por certas vacinas observam os invasores durante décadas.
À medida que a presença dos carrapatos parece vir a aumentar, espera-se que os casos de AGS também aumentem. “Os carrapatos parecem estar a espalhar-se”, apontou Richard S. Ostfeld, ecologista de doenças e cientista sénior do Cary Institute of Ecosystem Studies. “Infelizmente, os Estados Unidos não têm qualquer tipo de programa nacional de vigilância ativa de carraças ou carrapatos.” Os motivos pelo qual estão a espalhar-se também é difícil definir. A principal hipótese envolve as mudanças climáticas mas os investigadores hesitam nessa conclusão uma vez que se torna difícil testar com rigor.













