Num mundo onde os pagamentos digitais tornaram-se parte do quotidiano de quase todos os cidadãos do planeta e onde os principais bancos centrais estão a considerar a implementação de moedas digitais oficiais, o Banco Central Europeu (BCE), que está a desenvolver internamente o euro digital, recomendou esta quinta-feira que se mantenha dinheiro em casa.
O argumento é convincente, de acordo com a publicação ‘El Economista’: a sucessão de crises nos últimos anos (o colapso financeiro na Grécia, a pandemia do coronavírus, a invasão da Ucrânia e a consequente crise energética, e o apagão na Península Ibérica) justifica a utilidade de manter algum dinheiro em casa.
No artigo “Keep Calm and Carry Cash: Lessons on the Unique Role of Physical Money in Four Crises” (‘Mantenha a calma e tenha dinheiro: lições sobre o papel único do dinheiro físico em quatro crises’), publicado na passada quarta-feira no boletim mensal do banco central, os economistas da instituição destacaram o papel “crucial” do dinheiro durante crises como o apagão que afetou a Península Ibérica a 28 de abril último.
Os autores do documento argumentaram que o dinheiro em espécie, graças à sua utilidade psicológica, utilidade prática e liquidez descentralizada, surgiu como uma forma de pagamento emergencial quando o sistema digital entrou em colapso total. “O apagão ibérico destacou o papel do dinheiro em espécie como meio de pagamento indispensável em caso de falha da infraestrutura digital e também como uma ferramenta importante para tranquilizar a população, estendendo a sua influência inclusive a áreas que não foram diretamente afetadas pela crise inicial”, explicou o BCE.
A organização liderada por Christine Lagarde observou que, no dia em que a Espanha continental e Portugal ficaram sem energia elétrica, os gastos com cartão de crédito caíram entre 41% e 42% em comparação com um dia normal ou em regiões não afetadas. A receita do comércio eletrónico também desceu 54%.
“Este evento transformou o dinheiro em espécie, que era uma opção de pagamento entre muitas outras, no único meio de compra para muitas pessoas que o possuíam ou tinham acesso a ele, já que as notas bancárias existentes permaneceram perfeitamente funcionais mesmo quando os sistemas digitais e muitos caixas eletrónicos estavam inoperacionais”, indicou o estudo, que citou um estudo do CaixaBank Research e da agência ‘Reuters’, no qual o BCE estimou que as perdas diretas para o PIB variaram entre 400 e 1,6 mil milhões de euros.
O estudo ecoou outros momentos históricos, como a guerra na Ucrânia, a pandemia e a crise da dívida soberana grega, que revelaram um “padrão consistente” de como o dinheiro se tornou uma “reserva estável de valor” para os cidadãos em tempos de “stress agudo”.
A invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, desencadeou um aumento significativo na procura por dinheiro, concentrada em vários países vizinhos. “Esta é uma resposta comum à incerteza generalizada gerada por conflitos armados e tensões geopolíticas em relação à estabilidade institucional, à capacidade estatal e à resiliência da infraestrutura crítica. As preocupações específicas que impulsionaram essa procura incluíram o medo de potenciais ataques cibernéticos russos à infraestrutura digital crítica”, observou o documento do BCE.
O estudo destacou que cada vez mais Governos têm enfatizado o papel do dinheiro como um “componente crítico” para a segurança nacional e a incentivar os seus cidadãos, como nos casos dos Países Baixos, Áustria e Finlândia, a manter reservas para cobrir a compra de itens essenciais por 72 horas. Por exemplo, as autoridades desses países sugerem manter valores entre 70 e 100 euros por membro da família. Algumas jurisdições, como a Finlândia, estão até a explorar caixas eletrónicas “à prova de interrupções” para garantir o acesso durante interrupções digitais.














