França enfrenta esta quinta-feira, uma nova greve geral convocada pela intersindical que reúne os oito maiores sindicatos do país. Transportes, educação, serviços públicos, saúde e correios estão entre os setores mais afetados, numa jornada que sucede a 18 de setembro, quando centenas de milhares de pessoas saíram às ruas.
A mobilização surge após o fracasso das negociações entre os sindicatos e o primeiro-ministro Sébastien Lecornu, que recusou rever a reforma das pensões aprovada em 2023 — um dos principais pontos de discórdia — bem como alterar a proposta de orçamento para 2026, que prevê cortes significativos na função pública.
Entre as exigências, os sindicatos pedem aumentos salariais, melhores condições de trabalho, a redução do número de alunos por turma e a valorização da carreira docente. Reclamam ainda justiça fiscal, nomeadamente a tributação dos grandes patrimónios e rendimentos elevados, além de condicionar os mais de 200 mil milhões de euros de ajudas públicas às empresas a critérios sociais e ambientais.
Sophie Vénétitay, secretária-geral do SNES-FSU, o principal sindicato do ensino secundário, sublinhou que a mobilização é “uma verdadeira questão de interesse geral”. A dirigente sindical criticou ainda a postura de Lecornu no encontro de 24 de setembro em Matignon: “Ele nem sequer mencionou a reforma das pensões nas suas observações introdutórias”.
No setor da educação nacional, prevê-se uma forte adesão. O SNES-FSU já indicou que 45% dos docentes participaram na greve anterior e espera-se uma taxa semelhante ou superior desta vez. Em muitas escolas secundárias (collèges e lycées), professores deverão faltar em massa, o que pode levar ao encerramento de estabelecimentos.
Nas escolas primárias e pré-escolares, as aulas estão asseguradas pelo serviço mínimo, mas caso mais de 25% dos docentes faltem, as comunas poderão organizar a receção dos alunos em ginásios ou centros comunitários.
A rede ferroviária e os transportes urbanos em Paris deverão registar perturbações. A SNCF anunciou que os comboios de alta velocidade (TGV) circularão normalmente, mas haverá supressões em linhas Intercités e regionais TER. No caso da RATP, que gere metro e autocarros na capital, esperam-se greves mas sem paralisação total dos serviços.
Nos correios, a CGT-FAPT apresentou um pré-aviso de 24 horas, o que pode levar a atrasos na entrega de correspondência e ao fecho parcial ou total de várias estações da La Poste.
A CFDT apresentou também um pré-aviso de greve para os trabalhadores do setor da saúde e ação social, abrangendo hospitais públicos e serviços locais. Apesar da mobilização, os serviços de urgência deverão manter-se assegurados. Já nos serviços públicos, a federação da CGT prevê a adesão de funcionários de cidades, departamentos e regiões, o que poderá provocar atrasos administrativos.
Marchas e manifestações estão convocadas para todas as grandes e médias cidades do país. As forças policiais acreditam, no entanto, que o impacto poderá ser menor do que em setembro, quando o Ministério do Interior contabilizou 500 mil manifestantes (os sindicatos reivindicaram um milhão).
Fontes policiais citadas pela BFMTV antecipam uma participação mais reduzida e classificam o dia de hoje como “uma jornada de ação sindical mais comum”, embora admitam a presença de “alguns manifestantes radicais”.
O movimento de cidadãos “Bloquons Tout”, que mobilizou entre 175 e 250 mil pessoas em 10 de setembro, pondera associar-se à jornada de greve. Num comunicado, os organizadores apelaram a uma paralisação total: “No dia 2 de outubro, o país inteiro pára. Bloqueamos, ocupamos, fazemos greve em todo o lado, juntos”.
Esta greve decorre num momento delicado para o primeiro-ministro Sébastien Lecornu, fragilizado perante uma Assembleia Nacional fragmentada. O desfecho da mobilização poderá condicionar a apresentação do projeto de orçamento de 2026, previsto para 13 de outubro, e determinar a força da contestação social nas próximas semanas.














